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  • Foto do escritorAlberto Moby Ribeiro da Silva

MARROCOS: A ENCANTADORA FEZ

Atualizado: 14 de out. de 2022


No primeiro post sobre o Marrocos interrompi a viagem em Meknès, um pouco antes de partir em direção a Fez, 64km na direção nordeste. Ao chegar, mais uma surpresa. É que se não estivéssemos sendo levados por um guia contratado e juramentado, jamais acreditaríamos que a rua onde fomos parar fosse o endereço do nosso hotel. Mas isso eu conto daqui a pouquinho.

FEZ

Na descrição do escritor, compositor e viajante estadunidense Paul Bowles (que viveu 52 anos no Marrocos, onde morreu, em 1999), Fez é um “labirinto encantado abrigado do tempo”. Também conhecida como a “Meca do Ocidente” ou a “Atenas da África”, essa cidade tem 89km² de área e cerca de 1,1 milhão de habitantes, sendo a segunda maior cidade do Marrocos, ficando atrás apenas de Casablanca. Fundada em 789 por Moulay Idriss, Fez, foi a capital do Marrocos em várias épocas.

A localização, na Planície do Saïs, região fértil entre a Cordilheira do Rif, ao norte, e o Médio Atlas, ao sul, contribui para tornar Fez um centro importante de indústria agroalimentar. No entanto, nas últimas décadas o turismo teve um grande desenvolvimento, tornando-se a principal atividade econômica da cidade, o que contribui significativamente para sustentar a variada produção artesanal local em cerâmica, seda, cobre e vários outros suportes, mundialmente famosa, cujas tradições são cuidadosamente preservadas através das gerações.

Fábrica e loja de seda em Fez


Além disso, a cidade oferece diversas manifestações culturais, com destaque para o Festival de Fez de Músicas Sagradas do Mundo, realizado todos os anos em junho. Talvez por essa razão vivam em Fez muitos estrangeiros, alguns deles donos de alojamentos turísticos.

Ficamos hospedados na Riad Ahlam. O belo e confortável espaço foi uma surpresa para nós. Embora tivéssemos visto algumas fotos do local antes de fechar a reserva, foi surpreendente descobrir que o acesso a ele era em uma ruela sem importância, através de um portão absolutamente discreto, como outro qualquer. Isso merece um parêntese.

A palavra riad, em árabe, é um plural que significa jardins. É a denominação dada a casas ou palacetes tradicionais das medinas do Marrocos. Entre as suas características mais marcantes estão o fato de serem completamente fechadas para o exterior e de se estruturarem ao redor de um pátio interior central, normalmente ajardinado, segundo o modelo tipicamente árabe-andaluz, que, por sua vez, tem origem na villa urbana romana.

Sua denominação tem a ver com o fato de os pátios funcionarem como jardins, tendo árvores plantadas e dispondo de uma fonte. Além de sua função estética, esses jardins têm a finalidade de produzir um efeito refrescante sobre os quartos e janelas abertos para esse pátio. Outro aspecto importante do desenho dos riads é a noção islâmica de privacidade para as mulheres dentro dos jardins residenciais. Assim, quem passa na rua não tem a menor noção de quão exuberante pode ser o interior de um riad. Além disso, segundo nosso guia Moustafa, isso também tem a ver com a concepção local de que a ostentação da opulência de alguns não choque ou ofenda a vida modesta da maioria.

Acima, a entrada da Riad Ahlam, na Derb al-Miter (portal à esquerda) e, abaixo, o pátio interno, também usado como espaço para as refeições

No século XX, um processo de expansão imobiliária atraiu antigos moradores das medinas para novos bairros, mais modernos, acontecendo como consequência um processo de decadência das riads que passaram a sofrer a ameaça de ruína. Felizmente, a partir da década de 1990 começou a haver um interesse em se recuperar esse patrimônio – por razões culturais, mas muito também em função do turismo. Muitas das antigas riads têm sido transformadas em pousadas, hotéis e restaurantes, ainda que, lamentavelmente, nem sempre respeitando suas características originais. Mas é fato que em função do turismo o termo riad tornou-se sinônimo, no Marrocos, de um hotel de pequenas dimensões instalado em uma casa tradicional.

Voltando à cidade, a velha medina de Fez é uma imensidão rica em patrimônio, com as suas muralhas, castelos, mesquitas, madraças (escolas tradicionais de estudos islâmicos), ruas estreitas e sinuosas e seus souks (mercados), pelos quais se espalha uma explosão de cores, cheiros e sabores. Você pode escolher se perder pelo labirinto medieval do interior da medina ou contornar a muralha que a rodeia, admirando as várias portas, como Bab Guissa, a norte; Bab Ftouh, a oriente, em direção à cidade de Taza e às termas de Sidi Harazem; Bab Jdid, a porta mais próxima dos souks; ou Bab Boujloud, voltada para ocidente.

A Bab Jdid, acima, vista do Borj Sud, e, abaixo, Márcia (e, logo atrás, Adil, nosso guia em Fez) em frente à Bab Boujloud,

Mas um alerta: Fez é um verdadeiro labirinto de ruas estreitas por onde circulam apenas pedestres, bicicletas e burros de carga. A impressão que temos é que as casas foram sendo construídas de acordo com as mais diferentes necessidades e conveniências e que as ruas são apenas consequências. Pelo que pudemos perceber, essa parece ser uma característica das medinas de qualquer cidade islâmica antiga. Portanto, vá disposto a correr o risco de se perder.

Não há muitas chances de você passar por alguma situação perigosa ou violenta. Mas, por outro lado, pode ser que você se depare com uma pessoa “generosa” que, sabendo da sua condição de turista desorientado, cobre alguns dirhams (a moeda local) para prestar alguma informação, acompanhar você ao seu hotel ou simplesmente confirmar se você está na direção correta. Situação semelhante pode acontecer também em Marrakech, por exemplo, mas em Fez há maiores chances de você se sentir desorientado e rezando a Allah por uma ajuda.

No nosso caso, a opção foi pela companhia de um guia, já que não à toa Fez tem a fama de ter a maior e mais complexa medina do Norte da África. Tivemos a sorte de ter como guia o marroquino Adil, natural de Fez, que embora nunca tenha saído do Marrocos, fez licenciatura em Língua Portuguesa e fala o português brasileiro quase como um carioca. Obviamente, seu interesse mais imediato foi encontrar um meio de sobrevivência no mercado turístico, mas não deixou de surpreender o conhecimento e bom gosto que esse simpaticíssimo e esperto guia tem com relação à nossa língua, ao Brasil, a literatura e a música brasileira (neste caso, com algumas restrições de minha parte...).

Formada por 18 bairros, que nós turistas não conseguimos diferenciar, a medina Fes el-Bali (acima) tem cerca de 30 mesquitas, a famosa Universidade al-Quaraouiyine, diversas madraças, mausoléus e museus. Esse fascinante emaranhado parece funcionar exatamente como nos últimos mil anos. Em suas ruas, além de uma infinidade de pequenas lojas onde são vendidos temperos, cereais, carne fresca, frutas, pratos tradicionais e artesanatos dos mais diversos, você também se depara com inúmeras oficinas e ateliês, onde artesãos produzem peças de ferro, couro e cerâmica usando técnicas milenares. O mais fascinante é perceber que, diferentemente de outras medinas, inclusive no próprio Marrocos, todo esse comércio está voltado para a população local e que o turista é apenas um apêndice, dando a impressão que o mundo moderno é algo que apenas tangencia Fes el-Bali.

Por isso mesmo, Fes el-Bali não é nada fácil de apreender para alguém como eu, acostumado à lógica ocidental moderna.

É por essa razão que a minha lista de lugares que vale a pena visitar tem também esse tom desorganizado e caótico – até porque nenhum Google Maps me ajudaria a descrever numa sequência lógica ou cronológica a imensidão de maravilhas que pudemos ver no pouco tempo em que estivemos em Fez e em sua medina. Vale aqui a ordem em que as coisas que vimos reaparecem na minha memória ou no álbum de fotografias.

BAB L’MAKHZEN

Começamos nosso tour pela , a porta de entrada do Palácio Real de Fez, construído no século XIV, um dos maiores e mais antigos do Marrocos.

Devido ao seu grande tamanho, o palácio foi construído fora da antiga Medina e por isso após sua construção surgiu uma nova Medina, Fes el-Jdid, para abastecer as necessidades do palácio.

Assim como na maioria das mesquitas e palácios do Marrocos, não é possível visitar o Palácio Real de Fez e nem mesmo contemplar seu exterior. O visitante deve se conformar em contemplar apenas suas sete portas de diferentes tamanhos que representam os sete dias da semana e os sete níveis da monarquia. Essas enormes portas de bronze possuem milhares de pequenos azulejos de cerâmica, onde predominam as cores azul, representando Fez, e verde, do Islã, compondo as mais diversas formas geométricas. Veja abaixo alguns detalhes.

MELLAH

Próximo ao palácio, seguindo pelo Boulevard Bou Ksissat, depois de atravessar a Bab al-Samarin, chega-se ao Bairro Judeu (Mellah). O nome mellahque posteriormente seria dado ao resto dos bairros judeus marroquinos – vem da palavra “sal” em árabe, produto que possuía um grande valor na Antiguidade e que os judeus usavam como moeda de troca. Apesar de isolados em seu gueto particular, no passado os judeus preferiam permanecer no interior do recinto amuralhado que rodeava o palácio para desfrutar da proteção direta dos sultões. A comunidade judia possuía o monopólio dos metais preciosos, algo muito produtivo tendo em conta que antigamente uma das melhores formas de economizar era comprando ouro e prata. Com o passar dos anos, os antigos residentes do Bairro Judeu foram se espalhando pelo resto da cidade e os negociantes marroquinos assumiram os mercados dessa área.

Apesar disso, ainda podemos ver as características mais importantes que diferenciavam o Bairro Judeu das comunidades muçulmanas. Um dos detalhes mais importantes são as construções dos edifícios, dotados de sacadas exteriores com grades de ferro forjado, que são completamente diferentes das casas marroquinas, nas quais, como já disse anteriormente, têm as janelas orientadas para um pátio interno.

BAB BOU JELOUD

O Bab Bou Jeloud é um imenso portão ornamentado em Fes el-Bali construído pela administração colonial francesa em 1913 para servir como a grande entrada para a cidade velha ao lado de outro portão muito mais modesto construído nos tempos medievais.

O nome Bou Jeloud data de muito antes da existência do portão atual. Segundo um relato, o nome é uma corruptela da expressão Abu al-junud (“Pai das tropas”), que se refere a um desfile ou praça militar – neste caso a grande praça conhecida como Place Bou Jeloud, a oeste do portão. Fica também perto de onde estava uma das principais cidadelas de Fes el-Bali, o kasbá Bou Jeloud, assim como do kasbá en-Nouar.

Márcia e, logo atrás, Adil, nosso guia em Fez, em frente ao Bab Bou Jeloud


O antigo portão Bab Bou Jeloud era um portão simples e modesto que pode ter datado essencialmente do século 12. Dava acesso direto ao início da Tala'a Kebira, a principal rua souk que atravessa a medina e leva à mesquita e universidade Qarawiyyin, no centro da cidade. A passagem do portão foi colocada em um ângulo perpendicular a Tala'a Kebira e paralelo à muralha da cidade, o que significa que se entrava lateralmente em Tala'a Kebira. Este tipo de configuração era bastante comum nos antigos portões de cidades marroquinas, pois tornava mais fácil defender e controlar o acesso. O portão original ainda permanece. Observe na foto: ele fica à esquerda do portão monumental atual, visto por quem está do lado de fora, mas atualmente está fechado.

Com a entrada da pólvora e da artilharia pesada como recursos militares, fortificações de cidades antigas como Fez se tornaram obsoletas, embora ainda fossem eficazes em impedir a entrada de tribos rurais mal armadas, Nesse contexto, os portões da cidade passaram a exercer função meramente decorativa. Com o estabelecimento do Protetorado Francês sobre o Marrocos, em 1912, os franceses assumiram a administração da cidade. Uma das medidas dos franceses foi a construção de uma entrada maior para a cidade velha.

O novo portão, imitando a arquitetura marroquina, hoje é um dos principais símbolos da medina histórica de Fez. Ainda marca a entrada ocidental principal da medina e o limite além do qual o tráfego de automóveis geralmente não pode passar para a cidade histórica.

O Bab Bou Jeloud atual é formado por arco triplo, com formas arquitetônicas mouriscas, com arcos pontiagudos em ferradura e topo com ameias. Ambas as fachadas internas e externas são cobertas por azulejos policromados com arabescos e motivos geométricos marroquinos, com a fachada externa predominantemente azul – razão pela qual é conhecido como Porta Azul – e a fachada interna predominantemente verde.

Da Bab Boujloud partem duas das principais ruas da medina: a Talaa Lekbira, onde se situa a Madraça Bu Inania, com seus relógios suspensos, e a Talaa Sghira, famosa por seus sebos. Essas duas ruas levam aos souks de al-Attarine, onde se vendem especiarias e hena, ao quarteirão de Moulay Idriss II, onde se situa o mausoléu do co-fundador da cidade, o segundo rei da dinastia idríssida, descendente direta de Maomé, além dos famosos curtumes de Guernize.

MADRAÇA AL-ATTARINE

A Madraça al-Attarine, perto da Mesquita e Universidade al-Quaraouiyine, na medina Fez al-Bali, foi fundada pelo sultão Marinid Abu Said Othman II entre 1323 e 1325. Seu nome se deve ao Deve o seu nome ao souk (bairro de comércio) de perfumes e especiarias vizinho, o Souk de Attarine. Ela foi criada com o objetivo de formar os altos funcionários da administração da dinastia merínida.

Sua planta clássica é considerada uma das maiores conquistas da arquitetura merínida devido à sua rica e harmoniosa decoração e ao aproveitamento eficiente de um pequeno espaço.

Seu pátio rodeado de galerias dá acesso a uma sala de oração, cuja entrada é decorada com alizares e motivos florais. A abóbada da sala de oração é de madeira e dela pende um candelabro de bronze do período merínida. O pátio de abluções tem um lavatório de mármore com ricos acabamentos. O andar superior dispõe de 30 quartos destinados aos estudantes. Sobretudo devido aos trabalhos em estuque, zellige e alizares, o pequeno edifício é considerado uma obra-prima da arte decorativa.

Percorrer o interior da Madraça al-Attarine e imaginar o espaço ocupado dá outra dimensão à nossa visão sobre Fez, sobre o Marrocos e sobre o mundo islâmico, ainda que você não seja muçulmano ou não tenha nenhuma religião. É uma viagem no tempo e pela arte.

MAUSOLÉU DE MOULAY IDRISS II

O Mausoléude Moulay Idriss II é um santuário dedicado àquele que foi rei do Marrocos entre os anos 807 e 828. Moulay Idriss é, para a população de Fez, o equivalente ao santo padroeiro do catolicismo. Além disso, é o homem santo mais venerado de todo o país, sendo o responsável pela peregrinação de milhares de muçulmanos ao mausoléu para obter sua benção.

Cinco séculos depois da morte de Moulay Idriss II, em 1308, foi encontrado nesse local um corpo em perfeito estado e que foi considerado como sendo seu corpo. Por esse motivo essa área de Fez al-Badi se transformou em um lugar sagrado (zaouia). O mausoléu, localizado na Place de Marche Verte, começou sua construção em 1717 e foi terminado em 1824, momento em que se tornou o lugar mais sagrado da medina.

O edifício do Mausoléu de Moulay Idriss faz parte do conjunto arquitetônico composto pela casa de Quitun (suposta residência de Moulay Idriss), a Mesquita al-Asraf, a fonte e a casa do wudu (lugar para realizar as abluções). O conjunto, conhecido como al-haram (o proibido), constituía um lugar onde os muçulmanos podiam encontrar refúgio e asilo. Atualmente, esse santuário fica aberto 24 horas por dia, sempre disponível para que as centenas de muçulmanos que viajam de todo o país possam obter sua benção.

As ruas ao redor do mausoléu são denominadas “distrito sagrado”, que é delimitado por barras de madeira que antigamente serviam para evitar que os cristãos, os judeus e os burros penetrassem nesse espaço sagrado.

Assim como em vários outros espaços religiosos da cidade, é proibida a entrada de não-muçulmanos no Mausoléu de Moulay Idriss II. Mesmo assim, vale a pena ir até a porta e dar uma espiadinha, mesmo de fora. Sem desrespeitar as pessoas que a toda hora entram e saem do mausoléu, é possível conseguir belas fotos ou fazer pequenos vídeos. Recomendo apenas cuidado e empatia. Muitos fiéis demonstram claramente não querer ser filmados ou fotografados, ao que parece não exatamente por não quererem aparecer, mas por entender que seu momento de reverência e oração deve ser respeitado.

UNIVERSIDADE AL-QUARAOUIYINE

Segundo o Guiness Book of Records, a Universidade al-Quaraouiyine, fundada em 859, é considerada a universidade mais antiga do mundo. Só por isso, já valeria passar por ela e dar uma olhada. Além disso, a al-Quaraouiyine foi fundada com uma mulher, Fatima bint Muhammed al-Fahri, filha de um próspero comerciante chamado Mohammed al-Fihri.

Começou como uma pequena mesquita. A família al-Fihri era xiita e havia emigrado de Kairouan, cidade do centro-nordeste da Tunísia, no início do século IX. Na época, o território de Fez era parte do Califado Fatímida, xiita. Lá a família juntou-se a uma comunidade de outros imigrantes vindos de Kairouan.

Já estabelecida na parte oeste da cidade, Fatima e sua irmã, Mariam, receberam uma grande herdança de seu pai. Fatima decidiu destinar toda a sua herança à construção de uma mesquita para a sua comunidade. Nessa mesquita, instalou-se a primeira madraça de que se tem notícia. Como várias fontes descrevem essa madraça medieval como uma universidade, é dessa constatação que vem a crença de que essa teria sido a primeira universidade do mundo. Muitos pesquisadores acreditam que essas madraças – particularmente as de al-Andalus (atual Espanha) e as do Emirado da Sicília – tenham influenciado as universidades medievais europeias. Outros questionam essa influência do mundo islâmico sobre a Europa cristã e destacam as diferenças de estrutura, metodologias, procedimentos, currículos e estatuto legal entre a madraça e a universidade europeia. Seja como for, acho menos relevantes as diferenças e mais importante a ideia de uma instituição de ensino para formação superior, mais elaborada, numa área do Marrocos então sob influência xiita, ser a primeira no mundo com as características do que hoje entendemos por universidade. E funcionando até os dias atuais!

Na Universidade al-Quaraouiyine fica também a mais antiga biblioteca ainda em atividade do mundo. Fundada também no século IX, ela possui em seu acervo mais de 4 mil livros raros e manuscritos árabes, dentre os quais um Alcorão do século IX e um manuscrito do famoso filósofo Averróis (Abu al-Walid Muhammad ibn Ahmad ibn Muhammad ibn Rushd), nascido em Córdoba, na atual Espanha, em 1126 e morto em Marrakech em 1198. Infelizmente, assim como o Mausoléu de Moulay Idriss II, pessoas não-muçulmanas não têm autorização para entrar. Assim mesmo, apenas contemplá-la de fora já vale a pena.

CURTUME DE CHOUARA

O Curtume Chouara é o maior e um dos mais antigos dos três curtumes da cidade. Também localizado em Fes el-Bali, ele fica perto da Madraça Saffarin (Madraça dos Ourives), ao longo do Oued[1] Fes (também conhecido como Oued Bou Khrareb). Desde o início da cidade, a indústria de curtumes tem operado continuamente da mesma forma que nos primeiros séculos. Talvez seja essa a razão principal de os curtumes serem tão procurados pelos turistas.

A visão do Curtume Chouara é, sem dúvida, impactante. Ele é constituído por centenas de recipientes redondos de pedra cheios de tinta ou líquidos brancos para amaciar as peles. Cada um desses tanques fundos contém um corante diferente e cada tanque é cuidado por um único curtidor. O couro cru é levado para o tanque, os curtidores pisam nos couros, trabalhando por horas até que fiquem macios e maleáveis e tenham sido tingidos com a cor desejada.

Nos tanques claros, o principal ingrediente é, na verdade, um caldo que tem como base excremento de pombo, recolhido todos os dias por meninos que almejam um dia se tornar curtidores. Outros tanques contêm uma mistura de ácidos, pigmentos naturais e urina de vaca. Essa mistura cáustica ajuda a amaciar o couro duro e permite a absorção total do corante.

Para essa visita, faço dois alertas. O primeiro é que, em função da matéria-prima usada para produzir os corantes, o mau odor do curtume é bastante forte. Para minimizar o efeito desagradável, os produtores e vendedores locais distribuem para os turistas, na entrada do curtume, ramos de hortelã para serem friccionados e cheirados durante a visita. Esse truque alivia o mau cheiro, mas, evidentemente, não o elimina.

O segundo alerta é que para ter uma visão panorâmica do curtume você atravessa uma infinidade de portas e corredores, além de subir e descer escadas num ambiente bastante labiríntico que tem como pano de fundo um sem número de produtos de couro e carneiro e, principalmente, de camelo, que os comerciantes dar o seu melhor para te fazerem acreditar que são indispensáveis, necessários e imprescindíveis para você. Tudo bem que são bolsas, mochilas, sacolas, tapetes e peças de decoração belíssimas e, levando-se em consideração a história e a cultura do local, verdadeiras obras de arte. Mas não deixe nunca de pechinchar. No limite, caso tais objetos, por mais bonitos e bem feitos que pareçam, não tenham nenhuma utilidade para você ou não virem presente para um amigo ou parente querido, não se deixe levar pela conversa sedutora de quem traz de herança, há dezenas de gerações, a arte de vender.

MOSAÏQUE ET POTERIE DE FES

Um dos defeitos do turista, salvo exceções, é não costumar ter grandes preocupações com o cotidiano e a vida real dos locais que visita. A tentação de buscar o que nos parece “perfeito” e “irretocável” nos lugares visitados e em seu povo é muito grande. Não é diferente com quem visita o Marrocos. Quando falamos do fedor do Curtume Chourara, por exemplo, um pouco do encanto se quebra, não é? Por isso, os proprietários dos negócios que têm como cliente o turista, por mais modestos que sejam, se empenham em glamourizar ou, por outro lado, esconder a parte, digamos, feia das maravilhas que nos oferecem.

Na fábrica Mosaïque et Poterie de Fes, uma das maiores fábricas de zellige da cidade, também não é diferente. Em suas dependências, algumas dezenas de artesãos, com os joelhos apoiados em blocos de concreto e uma tira de jeans velha esticada no colo, martelam pedaços de argila colorida, quebrando metodicamente pedaços que formarão lascas em formatos e tamanhos precisos.

Em seguida, outro trabalhador pegará essas formas, posicionará e cimentará no lugar para criar um lindo zellige, Que em breve será avidamente arrebatado por um turista.

Se você nunca ouviu falar, zellige é um tipo de mosaico cerâmico, constituído por um ladrilho de terracota com pequenas placas esmaltadas coladas em gesso e dispostas de forma geométrica típico da arquitetura marroquina, onde é usado como ornamento de paredes, tetos, fontes, pavimentos, lagos, mesas, etc.

A arte do zellige (de onde deriva a palavra azulejo, em português) floresceu no período hispano-mourisco. Surgiu no Marrocos no século X apresentando nuances de branco e castanho. Permaneceu muito limitada em uso até passar a ser valorizada durante a dinastia merínida, por volta do século XIV. As cores azuis, vermelha, verde e amarela foram introduzidas no século XVII, cujos antigos esmaltes com cores naturais foram usados até ao início do século XX.

Ao longo do tempo, os patronos da arte usaram o zellige para decorar as suas casas como sinal de luxo e sofisticações. Mas também mesquitas e palácios se serviram – e ainda se servem – do zellige como tema decorativo. Esta forma de expressão artística, que usa motivos geométricos coloridos, surgiu da necessidade dos artistas islâmicos de criar decorações espaciais evitando a representação de seres vivos, que é proibida pela lei islâmica. Hoje, Fez e Marrakech, como no passado, Fez e Marrakech continuam a ser o centro da arte do zellige. A confecção dessas peças, uma habilidade passada de pai para filho, requer um treinamento intenso e trabalho árduo com baixa remuneração. Por isso, hoje em dia poucos jovens se sentem interessados ​​em aprender essa arte, já que fábricas, tanto no Marrocos quanto no exterior, podem cuspir ladrilhos semelhantes com muito mais rapidez e economia.

Ao mesmo tempo, não podemos deixar de lado o fato de que o artesão que produz essas maravilhas que vão enfeitar nossas casas e a cozinha prática da Rita Lobo, por exemplo, em geral faz isso desde aproximadamente os 7 anos de idade. Normalmente, cada artesão passou cerca de cinco anos aprendendo o ofício, provavelmente sem ter frequentado a escola. Produz cerca de 400 dessas peças durante uma jornada de trabalho de 10 horas ou mais e leva para casa por volta de US$ 10 – a única renda estável para uma família de seis pessoas que inclui seus pais e irmãos.

Em uma fábrica, esses ladrilhos industrialmente confeccionados custam apenas cerca de US$ 7,00, enquanto os feitos à mão podem custar US$ 200,00 por metro quadrado.

Obviamente, seria um absurdo se eu, depois de ter visitado e me maravilhado com o processo de produção e, é claro, com o produto da Mosaïque et Poterie de Fes fosse fazer um discurso contra o modelo artesanal de produção. Até porque imagino que o processo industrial, com o qual ela compete, é muito mais perverso, além de transformar uma arte tradicional marroquina em “macumba pra turista”.

Por isso acho que vale a pena recomendar respeito e interesse pelo processo de fabricação e pelas vidas das centenas de artesãos e artesãs da arte zellige. Talvez o incentivo à genuína produção artesanal, sem que os jovens sejam obrigados a abandonar a escola, possa ser uma forma de também contribuir para a elevação do nível de renda entre os pequenos produtores dessa arte tradicional marroquina.

BORJ SUD E BORJ NORD

O Borj Sud, O Forte (ou Torre) Sul, foi construído durante a dinastia saadiana, que reinou em Marrocos nos séculos XVI e XVII, ao que tudo indica tendo como modelo a arquitetura das fortificações portugueses da época. Ele está localizado nas colinas ao sul da Fes el-Bali, de frente para o seu equivalente nas colinas ao norte da cidade.

Ambos os fortes foram construídos em 1582 pelo poderoso sultão saadiano Ahmad al-Mansur. Os saadianos, cuja capital era Marrakech, enfrentaram notável resistência ao seu governo em Fez e os dois fortes eram peças da estratégia de dominação de Fez, que incluiu vários fortes que eles construíram ao redor da cidade. A intenção deles era manter a população inquieta de Fes el-Balisob controle, tanto quanto realmente defender a cidade de ataques externos. Consequentemente, os fortes foram construídos em posições de comando com vista para a cidade, de onde seus canhões poderiam facilmente bombardear a cidade, caso necessário.

Os saadianos construíram Borj Nord, Borj Sud e três bastiões ao longo das muralhas sul e leste de Fes el-Jdid, sempre inspirados n a arquitetura militar portuguesa – uma consequência de suas guerras para expulsar os portugueses do Marrocos. Sua construção provavelmente foi ajudada pelo trabalho e experiência de prisioneiros europeus capturados na famosa Batalha dos Três Reis (Batalha de Alcácer-Quivir), em 1578. Estas são as primeiras e provavelmente únicas fortalezas em Fez projetadas para a nova era da pólvora.

O Borj Nord atualmente é um museu militar, cujo nome é oficial é Musée des Armes (Museu das Armas). É um dos locais com melhores vistas sobre a medina e o resto da cidade.

Durante o período em que o Marrocos foi um “protetorado” francês (1912–1956), ele serviu de quartel e, depois, de prisão. Foi aberto ao público como museu em 1963.

O museu propriamente dito está alojado na torre do forte e apresenta uma vasta coleção de armas, algumas raras, desde machados pré-históricos até espingardas modernas, provenientes de várias civilizações de diversas partes do mundo, embora as peças mais interessantes sejam marroquinas. Há também um grande canhão com 5m de comprimento e 12t de peso, que foi usado na Batalha de Alcácer-Quivir. O museu tem quase 5 000 peças, 775 delas expostas, que estão expostos em 13 salas.

Infelizmente, o roteiro proposto pela Siroco Tours não destinava tempo para a visita a esse museu e por isso nossa visita se resumiu a contornar o forte (assim como fizemos no Borj Sud) e a contemplar a cidade do alto da colina.

RUMO AO VALE DO ZIZ

Saindo de Meknès, chegamos a Fez à noitinha, exaustos e famintos, o que só nos permitiu caminhar cerca de 500m até uma das entradas periféricas da medina para uma refeição e voltar – ainda um pouco assustados com uma lógica urbana, costumes e idioma bastante diferentes – para a Riad Ahlam, onde nos hospedamos. Nossa permanência em Fez, portanto, se resumiu a esse final de dia, ao dia seguinte e à manhã do outro dia, quando partimos para Azrou, Ifrane e o Vale do Ziz. Ou seja, não ficamos mais que 48 horas em Fez.

No entanto, foi tão absurdo o número de informações e tão encantadora a variedade e qualidade que este relato é, no máximo, a tentativa de registrar para você que me lê o meu desejo de voltar e incentivar o seu desejo de também ir conhecer. Acompanhe no mapa cada um dos nossos passos e vá pensando em qual seria seu roteiro. Nos encontramos daqui a pouco em Ifrane.

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