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  • Foto do escritorAlberto Moby Ribeiro da Silva

MARROCOS: DAS MONTANHAS NEVADAS AO SAARA EM UM DIA

Atualizado: 14 de out. de 2022


Mais correria! E mais encantamento! “Nossa” meta (ne verdade, a meta de um roteiro com o qual concordamos sem conhecer...) era, saindo pela manhã de Fez, terminar o dia em uma pousada em Amelkis, no Vale do Ziz. Mas – não por culpa do roteiro, nem dos nossos guias, nem tampouco nossa – no meio do caminha há tanta coisa interessante para ver em TÃO pouco tempo... Acabamos apenas vislumbrando Ifrane e não indo a Azrou, a apenas 19km.

O mais pitoresco é que a não ida a Azrou e a chegada ao Vale do Ziz já no final da tarde aconteceu por uma razão que jamais havia passado por nossas cabeças. Perdemos um tempo precioso à espera da liberação de uma estrada e acabamos decidindo retornar alguns quilômetros para pegar um caminho alternativo para nos livramos do... excesso de neve!

Pois é. Acontece que viajamos em janeiro. E no Hemisfério Norte, onde fica o Marrocos (pra quem não sabe), em janeiro é inverno. A temperatura média de Fez em janeiro é 11°C. Mas em Ifrane, 64km mais ao sul, a média é de pouco mais de 4ºC, sendo bastante comum ocorrerem temperaturas mais baixas e nevar. Na noite anterior, particularmente, nevou bastante. Tanto que havia a possibilidade de não conseguirmos entrar na cidade, em função da interdição das vias que dão acesso a ela, que estavam cobertas de neve.

IFRANE

Ifrane é uma cidade na região do Médio Atlas, no norte de Marrocos, com uma população de cerca de 74 mil pessoas, que está a uma altitude de 1.665m. Por suas características, é conhecido como “a Suíça Marroquina”.

A cidade moderna foi fundada pela administração francesa em 1928, durante a era do Protetorado, devido ao seu clima alpino. A intenção era que ela fosse uma cidade turística situada no alto das montanhas para que os europeus pudessem fugir do calor do verão nas colônias tropicais. O plano previa casas de verão do tipo chalé no estilo alpino, dispostas entre jardins e ruas curvas e arborizadas. Um palácio real também foi construído para o sultão Muhammed bin Yussuf. Os primeiros edifícios públicos da cidade consistiam em uma estação de correios e uma igreja. Além disso, foi construída uma penitenciária que serviu de campo de prisioneiros de guerra durante a II Guerra Mundial.

Em 1995, a Al-Akhawayn University, uma universidade pública de língua inglesa com currículo americano, foi inaugurada e isso ajudou a relançar Ifrane como um destino desejável para o turismo doméstico. Consequentemente, Ifrane continua a se desenvolver tanto como um resort de verão quanto de inverno. Antigos chalés no centro da cidade estão sendo demolidos e substituídos por condomínios, enquanto centros de férias e conjuntos habitacionais fechados estão surgindo nos arredores.

Hotel Le Chamonix

Trecho da Estrada Nacional Nº 8 (N-8) que passa pelo centro de Ifrane

Márcia junto à escultura do "Lion d'Ifrane", obra de 1930 do escultor francês Henri Jean Moreau

Área de lazer na neve perto do centro da cidade


Como demoramos muito tempo até entrar em Ifrane, acabamos por passar também muito pouco tempo na cidade e não foi possível conhecer, como tinha sido prometido, as “mágicas florestas de cedros de Azrou e Ifrane”, onde, segundo o roteiro original, a natureza é exuberante e espetacular. Havia também a perspectiva de avistar macacos e outros animais típicos da floresta, mas o excesso de neve e o atraso decorrente disso acabaram nos frustrando. Ainda assim, a natureza na região é realmente exuberante, o que é uma agradável surpresa para quem, por falta de informação, como eu, imagina o Marrocos, um dos países do Saara, como uma região apenas seca e desértica.

O caminho de Ifrane até o Vale do Ziz não é nada menos que deslumbrante. Os ambientes desérticos estão lá, sim, mas se alternando com florestas e campos nevados, sempre com a Cordilheira do Atlas no horizonte.

Além do mais, foram se sucedendo pelo caminho os mais variados povoados que a memória e os caracteres em árabe ou tifinagh (berbere) não permitiram registrar. Alguns deles, como Ait Oufella, Midelt e Errachidia são registros muito vagos. O que a memória registrou foram aquelas paisagens deslumbrantes até a chegada à pousada Maison d’hôtes Sahara, no povoado de Amelkis, no meio do Vale.

VALE DO ZIZ

O Vale do Ziz é uma paisagem rochosa cortada por profundos desfiladeiros que acompanham o percurso do Rio Ziz. Ao longo do seu curso, o rio vai alimentando uma série de oásis e trazendo a vida a uma paisagem que, caso contrário, seria de terra e pedra. É uma das regiões do mundo com mais palmeiras por km².

Durante trecho da Estrada Nacional 13 (N-13) que acompanha o verde das margens do Rio Ziz, surgem grupos de kasbás (cidadelas cercadas por muros ou muralhas existentes em diversas cidades do Norte da África) construídas para proteger famílias que habitavam uma área rica e, ao mesmo tempo, praticamente sem lei até aos anos 30 do século XX. Hoje em dia, grande parte das kasbás do Vale do Ziz não são habitadas, pois já não existe a necessidade da proteção das suas muralhas. Desde a estrada que percorre o Vale do Ziz é possível ver muitas destas construções fascinantes.

Nesse vale é impressionante o imenso oásis de Tafilalet, repleto de tamareiras. Acredita-se que, depois do Nilo, Tafilalet é o segundo maior oásis do continente africano. É, sem dúvida, o mais importante dos oásis do Saara marroquino, famoso por suas tâmaras grandes e saborosas, que foram introduzidas na região em meados do século XIII por um antepassado dos atuais reis de Marrocos, originário da Arábia Saudita. O sucesso das tâmaras contribuiu para a riqueza e poder da dinastia local, que ainda é patente nos numerosos alcáceres (ksour) e kasbás da região.

O trecho entre Ifrane até Midelt (abaixo), início do trecho do Vale do Ziz pelo qual passamos, é de 136km. É uma cidade famosa pela sua produção de maçãs e também por um grupo de minerais semipreciosos como a vanadinita, um mineral raro utilizado em ligas metálicas para aumentar a dureza do aço, tendo também a utilização na indústria química e petroquímica. De Midelt a Errachidia, mais 210km.

Midelt (acima) e Errachidia (abaixo)

Barragem Al-Hassan Addakhil, 14km ao noroestes de Errachidia


De Errachidia, por onde passamos só de passagem, o passo seguinte foi o povoado de Zaouiet Amelkis, 28km mais ao sul, onde pernoitamos no Hotel Maison d'Hotes Sahara (abaixo), a poucos passos do oásis e suas milhares de palmeiras de tâmaras. Foi lá que terminou a jornada do nosso quarto dia. Apesar do cansaço e da correria, não posso dizer menos desse dia do que espetacular.

O dia seguinte começou com um passeio por entre as tamareiras. Entre as palmeiras, a população pratica a agricultura de oásis, que é policultural e extremamente intensiva, já que as terras aráveis são escassas. A cultura da tamareira predomina, permitindo grandes colheitas nos meses de setembro e outubro. Cada tamareira pode chegar a dar 200 kg de tâmaras. É importante lembrar que a tâmara é um fruto bastante consumido no mundo islâmico, especialmente durante o Ramadã. na agricultura de Oásis. Mas os oásis permitem produzir várias outras espécies vegetais, principalmente hortaliças como o tomate, a cenoura, a alface e árvores frutíferas como o damasqueiro, a figueira e a oliveira.

Zaouiet Amelkis ao entardecer

Cultivo de hortaliças entre as tamareiras

A deslumbrante paisagem do oásis...

... vista da sacada do hotel, lembrava o ambiente da Guerra do Fogo

O contraste entre as paredes rochosas e as terras desérticas em tom avermelhado ao redor e o verde exuberante da faixa de terra que acompanha o Rio Ziz é deslumbrante. Ver a população local trabalhando aquela estreita faixa de terra da mesma maneira que provavelmente ocorre há gerações também não tem preço. Obviamente, não é hora de romantismos ingênuos, já que muito provavelmente também a vida desses trabalhadores não parece ser muito confortável. Mas é preciso também um exercício de imaginação para que seja possível especular se somente apenas o processo “industrial” de produção, em grande escala, para a produção de excedentes exportáveis a serviço de um empresário agrícola é capaz de levar prosperidade a quem trabalha a terra.

ARFOUD

Depois do passeio, nosso destino era Arfoud, 54km mais ao sul, em direção a Merzouga. Essa cidade, de cerca de 30 mil habitantes, é conhecida como a “porta de entrada para o deserto”, já que é a última cidade antes do pequeno trecho do Deserto do Saara que avança sobre o território marroquino. O encanto das suas ruas, casas tradicionais e a paisagem em geral, representam o centro da originalidade marroquina.

Arfoud numa foto de tadd debbie (2007)

Souk de Arfoud (foto de Joaoleitao, 2010)


Os habitantes de Arfoud vivem o sério dilema de ter que zelar por um inestimável tesouro em perigo: cerca de 500 variedades de fósseis, espalhados por cerca de 100km². Datados, em sua maioria, entre 410 e 500 milhões de anos, a venda desses fósseis sustenta cerca de 70% de seus habitantes.

Segundo afirmam geólogos e arqueólogos, Arfoud é o maior museu de fósseis a céu aberto do mundo. No entanto, essa riqueza ancestral está ameaçada, devido à superexploração, a proliferação de salas de exposição e também às vendas extravagantes a preços baixos. Os pesquisadores reclamam que, apesar de ser mundialmente famosa por seus fósseis, Arfoud não recebe incentivos ao desenvolvimento científico.

Fachada da empresa Morabit Fossiles, que comercializa mármores, minerais e fósseis em geral, como os das amostras abaixo

Por outro lado, embora tanto um acordo com a Unesco, datado de 1970, quanto uma lei marroquina proíbam a exportação de bens culturais por meios ilegais, não existe nenhuma menção explícita ao caso dos fósseis. O sudeste do Marrocos está incluído na rede mundial de reservas da biosfera da Unesco, mas isso não garante a preservação desse patrimônio.

Ou seja, a maior riqueza de Arfoud, por ser a principal fonte de sustentação da economia local, vem sendo dilapidada pela própria população, que precisa se desfazer dela para sobreviver. Com prejuízo para marroquinos e não-marroquinos, já que se trata de um patrimônio de toda a humanidade.

RISSANI

A parada seguinte, 22km ao sul de Arfoud, é Rissani – terra do nosso guia Mustafa, onde fizemos uma pequena parada.

Rissani é considerada a capital da região histórica do Tafilalt. embora por vezes esse título seja atribuído à relativamente nova Arfoud, fundada como cidade pelos franceses na primeira metade do século XX.

O Tafilalt foi um próspero reino independente na Idade Média, que tinha como capital a cidade vizinha de Sijilmassa. A partir do século XIV Rissani foi aos poucos se transformando na cidade mais importante da região, enquanto Sijilmassa declinava até ser completamente abandonada em 1818. A dinastia alauita, que reina no Marrocos desde o século XVII, é originária do Tafilalt e o nome oficial de Rissani se deve ao seu fundador, Moulay Ali Cherif (1589–1659), cujo mausoléu é uma das atrações turísticas, culturais e religiosas da região.

Portal de entrada de Rissani

Praça no centro da cidade


Além das tâmaras, outra fonte da riqueza dos filali (denominação dos nascidos no Tafilalt) foi o fato de a região ser um ponto estratégico de passagem da chamada “Rota do Sal”, pela qual circulavam as caravanas do comércio entre o norte e o sul do Saara, transportando principalmente sal, tecidos, couro, armas e especiarias, que eram trocados a sul por escravos e ouro. A riqueza dos filali é lendária e, em função dela, inda hoje é comum que até mulheres das famílias mais modestas tenham mais joias de ouro do que muitas mulheres de famílias mais abastadas de outras partes de Marrocos.

Nossa breve passagem por Rissani na verdade se resumiu a uma visita a um grande souk, onde, entre todo tipo de produto possível e imaginável, as estrelas eram os temperos e as tâmaras. Fomos também a um grande mercado de animais vivos – especialmente, ovelhas, cabras e galinhas, mas o praticamente já não havia mais nem vendedores nem compradores, sugerindo que a manhã tinha sido de bons negócios.

MERZOUGA

Nosso destino seguinte – onde deveríamos passar a nossa quinta noite – era Merzouga, pouco mais de 40km na direção sudeste. Merzouga é uma pequena aldeia berbere, já nas bordas do Deserto do Saara, a apenas cerca de 20km da fronteira com a Argélia. Sua principal atração é o Erg Chebbi, o maior conjunto de dunas do Marrocos.

Uma característica bastante peculiar de Merzouga, se comparada às outras cidades, aldeias e povoados até ali, é a grande quantidade de pessoas pretas entre a população. Segundo nosso guia, essas pessoas são em sua maioria nascidas em Merzouga ou nos arredores, mas descendentes de migrantes da África Subsaariana, principalmente da Mauritânia e do Mali.

Pizza marroquina, fast food para enfrentar o deserto, do Restaurante Nora, na Vila de Khemeliya


Outra característica que chamou nossa atenção, já desde Rissani, foi a quantidade de mulheres usando a burca nessa região. Também segundo nosso guia, o uso nessa região do Marrocos é recente e tem a ver com um avanço conservador que tem ocorrido nos últimos anos, trazido especialmente por famílias imigrantes do Oriente Médio.

Mulheres usando burca em Rissani (acima) e em Tinghir (abaixo)

Essas surpresas, no entanto, não chegam aos pés do sentimento de encontrar o Saara pela primeira vez. Depois de almoçar uma deliciosa pizza marroquina, num pequeno restaurante de beira de estrada na minúscula aldeia de Khemliya, nosso destino era o Sahara Majestic Luxury Camp, um acampamento (obviamente, para turistas) em frente às dunas de Erg Chebbi.

Turista que se preze sabe que, em alguma medida, está sendo enganado. Obviamente, o tipo de atração que as agências de turismo, hotéis, transportadoras, restaurantes etc. costumam oferecer a você não têm necessariamente a ver com a realidade cotidiana das populações dos locais que você visita. Quando muito, produz-se uma encenação verossímil, de forma a tornar sua viagem uma experiência inesquecível. E não podia ser diferente. Ninguém sai de sua casa a passeio esperando encontrar realidades duras, comida insossa, paisagens comuns.

O Deserto do Saara povoa a imaginação de milhões de pessoas em todo o mundo. Se você conhece um pouco de história e/ou de literatura, já construiu no seu imaginário a imagem de caravanas de mercadores montados em seus camelos, com seus trajes esvoaçantes, sob um sol radicalmente amarelo sobre areias encantadoramente alaranjadas.

Pode ser que você se decepcione se eu disser que essa não é (ou, pelo menos, não é mais hoje em dia) a realidade da imensa maioria dos povos do deserto. No entanto, mesmo que você saiba disso – como eu já sabia – a experiência de passar um fim de tarde, uma noite inteira e parte da manhã seguinte sob uma tenda no meio do Saara é inesquecível! O ambiente de fantasia estava lá, e imagino que todos os turistas no acampamento sabiam que era fantasia. Mas isso não diminuiu em nada a experiência única: a comida, a música, as barracas, o calor do dia e o frio da noite, os camelos, o céu incrivelmente estrelado, as dunas alaranjadas, o sol de um amarelo inacreditável – tudo estava lá, muito mais bonito do que sua mais delirante fantasia.

Faço um destaque especial para a simpatia, a disponibilidade e a sincera vontade de agradar do pessoal do acampamento. Evidentemente, os anfitriões foram treinados para isso, seus patrões ganham com isso e eles sobrevivem disso. Ainda assim, há algo que ultrapassa a obrigação que merece ser louvado. Faço um destaque mais especial ainda para o cozinheiro, garçom e percussionista Mohammed Ait, que acabou se transformando em nosso amigo, se assim se pode dizer de alguém de outra nacionalidade, outra cultura, outra religião, outra faixa etária, outro país que provavelmente você nunca mais vai encontrar, a não ser pela mágica das redes sociais.

Resumo da ópera. Dependendo da enganação, vale a pena ser enganado. A experiência no Sahara Majestic Luxury Camp, em Merzouga, realmente foi um luxo que valeu a pena.

de forma a tornar sua viagem uma experiência inesquecível. E não podia ser diferente. Ninguém sai de sua casa a passeio esperando encontrar realidades duras, comida insossa, paisagens comuns.

PRA LÁ DE MARRAKECH

Saindo de Merzouga, a etapa seguinte prevista para a nossa viagem era uma breve passagem por Tinghir, para conhecer o desfiladeiro conhecido como Gargantas do Todra e de lá para Uarzazate, para dormir e descansar. No dia seguinte, mais uma maratona: a kasbá de Aït-Ben-Haddou, os estúdios da Atlas Corporation, Kelaat M'Gouna, Tizi n'Tichka e, ao final do dia Marrakech.

Nosso destino final, no entanto, estava, como diria Caetano Veloso, pra lá de Marrakech, em Casablanca, última etapa da viagem. Você acha que conseguimos? Não perca o próximo episódio dessa emocionante série. Mas espera só mais um pouquinho, talkey?

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