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  • Foto do escritorAlberto Moby Ribeiro da Silva

MARROCOS E SUAS PAISAGENS DE CINEMA

Atualizado: 14 de out. de 2022


O sexto dia do nosso tour pelo Marrocos foi mais um dia de correria. Nossa meta era chegar a Uarzazate no final da tarde, passando por Tinghir, pelas chamadas Gargantas do Todra e Kelaat M’Gouna. Cada um desses lugares tem seus pontos de atração. O ideal seria visitar todos esses lugares com calma. Mas não quando estamos no sexto dia de um roteiro de dez. Em todo caso, lá fomos nós. Começamos por Tinghir, 197km na direção noroeste a partir de Merzouga.

TINGHIR/GARGANTAS DO TODRA

Tinghir fica no centro do oásis do vale e perto das famosas Gargantas do Rio Todra, no planalto que separa o Alto Atlas do Monte Saghro, que, por sua vez, é um dos extremos do Anti-Atlas. É rodeada pelo palmeiral Todra, muito denso e alongado, que ocupa apenas as margens do oued.

Situada a 1.288 metros, Tinghir tem cerca de 42 mil habitantes. Sua origem remonta ao século V a.C., quando as populações sedentárias chegam ao Vale do Todra para a plantação das tamareiras. Ao longo da história, essa região foi ocupada por populações negras subsaarianas, povos berberes e comunidades judaicas – das quais as ruínas de um imenso mellah são um poderoso testemunho.

A economia da cidade se baseia principalmente na agricultura, comércio e serviços relacionados ao turismo, além da presença da maior mina de prata pura da África nas montanhas da cidade, a mina Imider. No entanto, muitas famílias sobrevivem com o dinheiro transferido por imigrantes na Europa.

Seja como for, não resta dúvida de que o que atrai centenas de visitantes à região é beleza natural do oásis, das Gargantas do Todra e das montanhas do Alto Atlas, bem como os kasbás e ksour (alcáceres, fortalezas).

Os efeitos da erosão sobre a paisagem de Tinghir

Ruínas do mellah (bairro judeu), tendo à frente um trecho do oásis repleto de tamareiras

Detalhe do mellah


Aproximadamente a 16km de Tinghir no sentido noroeste está o estreito e profundo desfiladeiro denominado Gargantas do Todra, esculpido pelo Rio Todra. Ladeado de escarpas muito íngremes que chegam a ter 200m de altura nos últimos 40 km do percurso através das montanhas, seus últimos 600 metros constituem o trecho mais espetacular. Aí, o cânion fica ainda mais estreito, não ultrapassando os 10m de largura em alguns lugares, e é ladeado por paredes praticamente verticais de rocha macia que atingem os 160m de altura. A pequena corrente de glaciar parece algo deslocada no vale, indicando que, muito provavelmente, num passado remoto por ali passava um rio muito mais caudaloso.

Antes um local remoto e de difícil acesso, atualmente uma estrada bem pavimentada corta o desfiladeiro. O desfiladeiro é popular bastante popular entre trilheiros e montanhistas. Nas paredes de rocha robusta e com muitas irregularidades existem mais de 150 rotas de escalada com grampos classificadas com os mais variados graus de dificuldade.

Evidentemente, não era nossa intenção nem fazer uma longa caminhada – porque o nosso tempo era escasso e cronometrado – nem muito menos subir as paredes das Gargantas do Todra. No entanto, acredito que mesmo assim qualquer visitante que vê de perto aqueles paredões sente pelo menos um pouco do deslumbramento e da taquicardia desses atletas.

Uma última observação sobre a região, que serve para grande parte do sul do Marrocos, é que esse vale é habitado por uma só etnia berbere autóctone, os todgha, que não tem quaisquer relações com as tribos amazighs vizinhas. A região está estruturada em três comunas, herdeiras dos antigos distritos de Todgha al-Ula ("ao norte do 'mercado', ou seja, a norte de Tinghir), Todgha as-Sufla, ao sul, e Ait Aissa Ou Brahim, este último ocupado por uma fração da tribo Beraber seminômade dos Ait Atta. Os dois primeiros distritos são constituídos por 51 aldeias historicamente autônomas entre si, constituídas em tribos. Algumas dessas aldeias eram mellahs. Há sinais da unidade identitária por toda a região no artesanato, nas construções, na maneira de vestir, no idioma tamazight, na escrita tifinagh e num certo orgulho berbere.

Mural gravado no tecido de uma tenda de comércio de beira de estrada afirmando a identidade amazigh

Acima e abaixo, a letra yaẓ (dz), do alfabeto tifinagh, símbolo do povo amazigh (berbere). A palavra amazigh significa "homem livre" na língua tamazight

KELAAT M'GOUNA

De Tinghir-Gargantas do Todra seguimos para Uarzazate, a 173km no sentido sudoeste. Teoricamente, deveríamos ter feito uma parada em Kelaat M’Gouna, a 75km de Tinghir, mas acabamos apenas passando de passagem pela cidade. As principais atrações dessa cidade são o seu Festival das Rosas, que acontece todos os anos em maio, e o Vale das Rosas, onde essas flores são cultivadas, motivando a tradição do festival. As rosas são usadas na fabricação de óleo de rosas e água de rosas, produzida em duas destilarias da cidade que produzem vários produtos cosméticos. O óleo de rosas é usado para cozinhar, enquanto que a água é usada em perfumaria. As rosas são a principal atividade da região, que produz anualmente cerca de 3 000t de pétalas de rosa.

Mais uma vez, em função da sucessão avassaladora de atrações visitadas e por visitar, Kelaat M'Gouna (abaixo) teve que esperar por outra viagem ao Marrocos.

Apesar de não termos parado para conhecer Kelaat M’Gouna, é preciso registrar que o caminho entre Tinghir e Uarzazate é de uma beleza tão selvagem quanto estonteante. A propósito, para além das paisagens naturais, é comum encontrar, margeando a estrada (a N-10) edificações de adobe em ruínas. Embora seja bastante comum encontrar muitas das às vezes monumentais kasbás em perfeito estado de conservação – provavelmente, por serem uma das mais famosas atrações turísticas do Marrocos –, é também muito comum encontrar habitações mais modestas completamente abandonadas.

Uma explicação provável para isso é a fragilidade dessas construções. Pelo que aprendemos com nossos guias, é menos trabalhoso construir uma nova habitação (às vezes ao lado ou muito perto da anterior) que reparar a antiga. Essa condição não é exclusiva do sul do Marrocos, embora tenhamos notado uma maior ocorrência delas naquela região.

UARZAZATE

Chegamos a Uarzazate no final da tarde. O nome da cidade na língua tamazight significa “sem barulho”. Foi exatamente essa a impressão que tive ao andar pelas ruas da cidade. É impressionante como as pessoas se moviam pelas ruas tocando suas vidas e realizando suas tarefas cotidianas em silêncio. Não sei se a denominação da cidade tem a ver com o comportamento dos seus moradores ou se é apenas coincidência que minha percepção tenha captado essa característica, já que nessa época eu ainda não sabia o significado do nome. Por outro lado, é importantíssimo dizer que nosso passeio por Uarzazate aconteceu numa sexta-feira, que é dia de descanso para os muçulmanos, equivalendo, a grosso modo, ao nosso domingo.

Uarzazate está situada nos contrafortes sul do Alto Atlas, na confluência dos vales dos rios Uarzazate e Dadés, que formam o Rio Drá a jusante da cidade. É o centro nevrálgico de uma vasta região do sul marroquino, de transição entre as montanhas do Atlas e o deserto do Saara.

Os principais atrativos turísticos de Uarzazate são as inúmeras kasbás, construídas em taipa, as montanhas do Atlas, as planícies áridas, os vales e oásis verdejantes, os palmeirais e as aldeias de barro vermelho ou ocre.

Durante muito tempo Ouarzazate foi um pequeno ponto de trânsito para comerciantes africanos a caminho do norte do Marrocos e da Europa. Sua elevação ao status de cidade surgiu em 1920, com o início do período colonial francês, quando passou a abrigar um quartel militar.

Prefeitura de Uarzazate

Paisagem vista da Riad Dar Chamaa (abaixo), onde nos hospedamos

Área urbana da silenciosa Uarzazate

Um dos símbolos de Uarzazate é o Kasbá Taourirt. De acordo com a tradição oral, esse kasbá foi construído pela primeira vez no século XVII pela poderosa família berbere Imzwarn.

O que é certo é que o kasbá passou a pertencer à família Klaoui no século XIX, sob a qual sofreu uma ampliação. No auge de sua importância ,no final do século XIX, o kasbá controlava uma área de grande importância na confluência de vários vales de rios – incluindo o Draa e o Dadès – que faziam parte das rotas de comércio do Saara.

Entre a segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX, um dos membros da família Klaoui, Thami el-Klaoui, foi legitimado pelas autoridades do "protetorado" francês como paxá de Marrakech, tendo governado a província durante todo o domínio colonial. Após o fim do domínio colonial francês e o fim do controle de Klaoui sobre a região, o kasbá foi progressivamente ocupado por posseiros e começou a decair. Uma pequena parte do kasbá foi restaurada na década de 1990, com a ajuda da UNESCO e está aberto à visitação pública. No entanto, ainda hoje algumas famílias moram em áreas não restauradas desse famoso kasbá . Um detalhe curioso: o Kasbah Taourirt aparece em filmes como Gladiador e Príncipe da Pérsia.

Depois de uma reparadora noite de sono em Uarzazate, começamos nosso sexto dia visitando os estúdios da Atlas Studios Corporation e Aït-Ben-Haddou.

Desde 1897, quando foi rodado o primeiro filme no Marrocos, Uarzazate vem sendo escolhida como locação ideal para diversos filmes. Primeiro diretores franceses, graças à ocupação colonial, mas depois também realizadores alemães, britânicos e estadunidenses levaram para Uarzazate histórias e grandes atores e atrizes, como, por exemplo, a alemã Marlene Dietrich e Gary Cooper (no filme Marocco [Marrocos], de Joseph von Sternberg, em 1930)".

Após a II Guerra Mundial, o interesse de cineastas de várias partes do mundo por Ouarzazate aumentou e se diversificou bastante. Ouarzazate passou a receber com muito mais intensidade franceses, americanos, espanhóis, italianos, holandeses, suecos e belgas.

Na década de 1960, Uarzazate começou a servir de cenário basicamente para filmes históricos ou pseudo-históricos. O mais famoso talvez tenha sido Lawrence da Arábia (1962), filmado em Aït-Ben-Haddou, uma pequena aldeia classificada como Patrimônio Mundial em 1987.

A cidade atualmente é sede do complexo Atlas Studios Corporation, que abriga um museu do cinema, onde estão expostas peças dos cenários e vestuário usados em alguns como Kundun (1997), Gladiador (2000), Alexandre (2004) ou Cruzada (2005).

Mais recentemente, até filmes da Coréia do Sul, África do Sul, Cuba e Brasil foram rodados na região. Depois de uma parada de emergência, causada pela crise após o 11 de setembro de 2001, os estúdios de Ouarzazate retomaram suas atividades em ritmo acelerado. No entanto, em termos de repercussão internacional, nada se compara à produção Game of Thrones. Aït-Ben-Haddou foi palco do episódio piloto da série, além de ser cenário para as histórias de Daenerys Targaryen (Emilia Clarke) na terceira temporada. Esse ksar dá vida à cidade fictícia de Yunkai.

Não chegamos a visitar o museu, mas os seus arredores dão uma ideia bastante completa de como as incríveis paisagens da região estão prontas para "atuar" em filmes sobre os mais diversos temas - principalmente se ambientados na Antiguidade ou na Idade Média.

Aït-Ben-Haddou já é, por si só, uma incrível atração arquitetônica e histórica, legitimando o título. Fundado em 757, na antiga rota de caravanas entre o Saara e Marrakech, Aït-Ben-Haddou é um conjunto de pequenos kasbás, construções em barro e palha, cercadas por uma muralha, chegando a ter 10m de altura cada uma. Situada numa colina do sopé do Alto Atlas, à beira do rio Unila, afluente do Ouarzazate, que, por sua vez, é afluente do Drá.

O alcácer começou como a casa de uma família apenas, no entanto a povoação cresceu bastante, até chegar ao tamanho atual. Hoje em dia, maioria dos habitantes da cidade vive numa aldeia mais moderna, no outro lado do rio. No entanto, oito famílias ainda vivem no alcácer.

Além da série Game of Thrones, entre os filmes famosos produzidos na Atlas Studios que utilizaram Aït-Ben-Haddou como locação, os mais conhecidos são Lawrence da Arábia, A Múmia, Gladiador, Alexandre e Príncipe da Pérsia, entre muitos outros.

Aït-Ben-Haddou vista à distância

À direita, a colina que abriga o kasbá de Aït-Ben-Haddou e, à esquerda, o povoado moderno

Aït-Ben-Haddou de perto

Dois coloridos moradores de Aït-Ben-Haddou

Rio Unila

Apesar de o ambiente de fantasia da Atlas Studios ser a atração principal de Uarzazate, confesso que meu encanamento com Aït-Ben-Haddou foi maior. Achei que a realidade da kasbá de Aït-Ben-Haddou, apesar da deterioração e do enxame de turistas, é muito encantadora que a fantasia. Como, aliás, a maior parte do que vi no Marrocos. Meu olhar domesticado ocidental-cristão foi obrigado a se abrir para outra realidade. E aí está o encanto.

TIKI N'TICHKA

De lá, seguimos em direção a Marrakech. No caminho, uma parada indispensável é Tizi n'Tichka (“montanha gramada”), um passo de montanha na Cordilheira do Alto Atlas, a 2.260m de altitude, na metade do caminho da estrada N-9 que liga Marrakech e Uarzazate. O trecho da estrada que passa no Tizi n'Tichka é considerado um dos mais bonitos de Marrocos, com algumas das vistas mais deslumbrantes sobre as montanhas mais altas do Alto Atlas.

Ao longo da estrada ou perto dela existem várias aldeias tradicionais com casas de pedra ou de terra batida, rodeadas de platôs e de nogueiras, em que os habitantes se dedicam à agricultura, cultivando trigo, cevada em milho, à hotelaria e à venda de souvenirs para quem passa. Entre os produtos mais vendidos encontram-se cerâmica, louça, artesanato em pedra e fósseis, mas principalmente rochas e minerais, dos quais a região é abundante.

Parada estratégica para o almoço em Tizi n'Tichika

Nosso motorista, Ibrahim, e nosso guia, Mustafa, num momento de descanso

Nós emoldurados


Abaixo, uma pálida ideia do que podemos admirar em Tizi n'Tichka.

RUMO À "PÉROLA DO SUL"

Terminamos essa jornada à tardinha, na Riad Argan, na medina de Marrakech, para a última parte desses intensos dez dias, que termina em Casablanca. Se você caminhou comigo até aqui, acompanhe no mapa nosso trajeto. Nele, faltam Algerciras, na Espanha, onde ele começou, Tanger Med, o porto por onde entramos no Marrocos, Tetuan e Chefchaouen. Culpa do Google maps, que limita o percurso em apenas dez pontos.

Se você chegou agora, procure as postagens anteriores. E não perca a última etapa. Até daqui a pouco.


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