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  • Foto do escritorAlberto Moby Ribeiro da Silva

PONTEVEDRA, CIDADE DA MOBILIDADE

Atualizado: 21 de ago. de 2021

Pode haver tristeza maior do que ver a pessoa que você ama na Rua da Amargura? Comigo aconteceu exatamente o contrário! Apesar do frio e da chuva, foi uma grande alegria fotografar minha mulher, Márcia, na Rua da Amargura. E garanto que para ela também! Essa foi uma das boas surpresas dos escassos dois dias que passamos em Pontevedra.

A primeira boa surpresa foi o espaço que a cidade dedica aos pedestres. Cada vez mais, circular livremente a pé ou de bicicleta por uma cidade cujo centro não esteja dominado por carros é o sonho de muita gente, turista ou não. Descobri que Pontevedra passou a ser conhecida nos últimos anos exatamente por isso. Lá você se depara com amplas calçadas e outra forma de acessar o espaço urbano, com segurança, sem poluição, sem acidentes e com acessibilidade.

Os habitantes de Pontevedra, cidade da Galícia, no nordeste da Espanha, garantem que essa realidade não é algo impossível, já que a cidade tem essas características há cerca de 20 anos. Apesar da belíssima paisagem litorânea, com a foz do Rio Lérez, que que desemboca no Oceano Atlântico, e da reputação anfitriã de ser excelente anfifriã, Pontevedra se tornou conhecida em todo o mundo pela sua estrutura de planejamento urbano, sendo considerada um caso de absoluto sucesso, ao escolher as pessoas como prioridade nas ruas, ao invés dos carros.

Mas confesso que não foi nada disso que me motivou a ir a Pontevedra. Pra dizer a verdade, eu sabia muito pouco sobre essa cidade. Na verdade, acontece o tempo todo com quem ama viajar. Você põe no roteiro uma cidade ou mesmo uma rota que tem como objetivo ser passagem ou ponto de descanso para outro destino e quando menos espera está caído de amores.

Pontevedra não está, por exemplo, entre as dezoito cidades mais visitadas da Espanha do blog de viajantes Dicas de Barcelona. Também não nenhum dos dezesseis pontos turísticos listados como os principais da Espanha pelo blog Em Algum Lugar do Mundo. Nem mesmo costuma ser mencionada pelos sites e blogs sobre a Galicia (Galiza, em galego), região autônoma da Espanha onde Pontevedra está localizada, como um dos melhores destinos, a não ser que o viajante tenha um interesse especial pelos aspectos da acessibilidade e da mobilidade urbana.

Como se não bastasse o nosso desconhecimento, nossa curta passagem por Pontevedra se deu num mês de janeiro, em pleno inverno, época em que mais chove numa região já chuvosa. Mesmo assim insisto que nos sentimos acolhidos, aconchegados e querendo voltar.

Bem, mas o que existe de tão interessante assim em Pontevedra? Na verdade, nossa experiência se limitou ao centro histórico da cidade e, portanto, o que eu disser aqui tem a ver com esse limite (que, claro, foi ampliado pelo que li e vi a posteriori produzido por outros viajantes que, como nós, se encantaram pela cidade).

Ficamos hospedados na Rúa Marqués de Riestra, bem perto das Ruínas de San Domingos, a maior construção da ordem religiosa dos dominicanos na Galícia. No século XIX esse monumento estava em estado de ruína e abandono, até ao ponto de ter sido decidida sua demolição total. Essa decisão que foi impedida pela então Sociedade Arqueológica da altura, tendo as ruínas sido declaradas monumento nacional em 1895.


Ruínas da igreja do Convento de San Domingos


Se você, como eu, tem o hábito de visitar templos históricos e/ou culturalmente significativos para os lugares onde vai, bem perto das Ruinas de San Domingos ficam a Praza da Peregrina e a Capela da Virxe Peregrina. Construída no final do século XVIII, essa pequena construção em formato circular é uma das edificações mais simbólicas e relevantes da cidade. É dedicada à padroeira da província de Pontevedra e do Caminho Português a Santiago. Seu interior da conserva uma imagem da virgem do séc. XIX, bem como uma grande concha natural para a água benta (situada na porta de entrada). Sua planta é inspirada numa concha de vieira, símbolo dos peregrinos e do Caminho de Santiago. Na fachada vê-se a Virgem, acompanhada por Santiago e São José, os três com a indumentária do peregrino. Ao pé do santuário, na fonte, vemos o brasão da cidade e Teucro, mítico fundador de Pontevedra.

Fachada e vitral da Capela da Virxe Peregrina


A cerca de 150m de Praza da Peregrina, na Praza da Ferraría, fica outro lugar imperdível: a Igrexa de San Francisco. Segundo a tradição, um convento foi fundado nesse local por São Francisco de Assis, que parou em Pontevedra quando percorria a rota portuguesa do Caminho de Santiago. O que é fato histórico é que suas fundações já existiam em 1274, segundo consta no Arquivo Nacional e em documentos do mosteiro de Armenteira. Sua edificação contou com a ajuda econômica dos herdeiros do nobre militar e poeta galego Paio Gómez Chariño, cujos restos mortais se encontram em seu interior; Chariño foi um personagem importante na reconquista de Sevilha aos mouros.

A igreja é de estilo gótico tardio ou ogival e foi declarada monumento histórico-artístico em 1896. Sua planta é em cruz latina, com nave única, cruzeiro, coberta de madeira e cabeceira com três absides poligonais, cobertas com abóbadas de cruzaria. Em 1995 o templo sofreu um incêndio, sendo restaurado pouco tempo depois.

Márcia e Laura na Praza Ourense, com o Xardín de Castro San Pedro e a Igrexa e Convento de San Francisco ao fundo

Sepulcro de Paio Gómez Chariño e, provavelmente, sua esposa


Ainda seguindo meu circuito religioso, outra visita indispensável é a Basílica de Santa María a Maior, construção do século XVI declarada monumento histórico-artístico pertencente ao Tesouro Artístico Nacional em 1931.

Construção de estilo gótico, com influências do estilo manuelino português, destacam-se nessa igreja suas fachadas. A principal, orientada a oeste, apresenta uma ampla escadaria de acesso. Tem a estrutura em forma de retábulo, com três corpos abundantemente decorados. Sua porta fica no corpo central, com um arco de meio ponto emoldurado pelas esculturas de São Pedro e São Paulo. Na parte superior da porta se pode contemplar um relevo da Dormição de Maria – para os católicos, o período entre a morte e a assunção ao céu da Virgem Maria – e acima da decoração em base aos medalhões em forma de conchas de vieiras, assim como esculturas de santos, personagens bíblicos e até mesmo históricos. Finalmente, acima, uma rosácea, símbolo do céu. A fachada é coroada por um Calvário e, por último, a ameia típica de estilo manuelino português. Os locais comentam que entre as figuras dos santos que aparecem na decoração dessa fachada podem ser vistos também os bustos de Cristóvão Colombo e Hernán Cortés, que estão situados aos lados da rosácea.

Deixando de lado a “peregrinação religiosa” – e considerando o pouquíssimo tempo que passei na cidade, deixo registrados aqui mais alguns pontos para os quais acho que quem passar por Pontevedra deve dedicar um tempinho.

Antes de mais nada, vou logo avisando: não se aborreça se, de repente, você se vir, sem mais nem menos na Rua da Amargura. Não se desespere, continue andando tranquilamente até a Praza das Cinco Rúas, pela qual passam, como o nome já indica... quatro ruas: a Paio Gómez Chariño, a Isabel II, a San Nicolás e a Rúa do Barón. No centro dela está um cruzeiro barroco, datado de 1773.

É nela que fica também uma casa de valor histórico por ter sido por algum tempo a residência do grande romancista, poeta, ator e dramaturgo galego Ramón del Valle-Inclán. Aproveite e siga até a Rúa Don Gozalo, onde há uma estátua em tamanho natural do escritor, feita pelo escultor espanhol César Lombera, inaugurada em 2003.

De lá, vá até a Glorieta de Compostela, onde fica a encantadora Fonte dos Nenos, onde três crianças de bronze, em tamanho real, brincam com a água do chafariz, no centro dessa agradável praça circular.

Lamentavelmente, choveu bastante durante nossa curtíssima permanência em Pontevedra. Juntando a isso o fato de que estávamos no inverno, com “baixíssimas” temperaturas para os padrões de um carioca, não foi possível desfrutar das praias e demais paisagens naturais que a cidade oferece.

O que fazer quando um turista que se preze cruza com mau tempo? Visitar museus. Claro, visitar museus não fazia parte do nosso apertadíssimo roteiro em Pontevedra, mas acabamos dando de cara com o Museo de Pontevedra. Mas sobre ele eu falo na próxima postagem.

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