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  • Foto do escritorAlberto Moby Ribeiro da Silva

MARROCOS: MARRAKESH & CASABLANCA

Atualizado: 14 de out. de 2022


Continuando nossa volta pelo Marrocos em dez dias, de Tizi n’Tichka a Marrakech, ainda pela N-9, são cerca de 100km na direção noroeste. A cidade, conhecida como a “pérola do sul” ou a “porta do sul”, é a quarta maior cidade do país. É uma das quatro cidades imperiais do Marrocos (designação das quatro cidades marroquinas que foram capitais das antigas dinastias reinantes, junto com Fez, Meknès e Rabat, a capital atual) e a que atrai mais turistas.

A região é habitada por berberes desde o Neolítico, mas a cidade só foi fundada em 1062. No século XII, os almorávidas construíram muitas madraças e mesquitas com claras influências da arquitetura do Al-Andalus – como era conhecida a Península Ibérica durante a dominação muçulmana As muralhas avermelhadas da cidade, construídas por Ali ibn Youssef em 1122-1123, e vários edifícios construídos em pedra igualmente avermelhada durante esse período, estão na origem de um de seus apelidos: a “cidade vermelha”.

Assim como em muitas outras cidades marroquinas, Marrakech tem uma medina, mais ou menos equivalente à cidade primitiva, cercada de muralhas, fortificada, com ruas cheias de lojas e vendedores de rua e rodeada por bairros modernos, como Gueliz, o mais elegante e o mais próximo do centro, pelo qual, infelizmente, só passamos de passagem.

Av. Hassan II e o Théâtre Royal, em Gueliz

Jardin 16 Novembre, em Gueliz

Nossa visita se concentrou na medina, inscrita na UNESCO como Patrimônio Mundial desde 1985. E nela que está concentrado o maior souk berbere, com 18 souks especializados, onde são vendidos, e em muitos casos também fabricados, os mais variados produtos, que vão desde os tapetes tradicionais berberes até produtos eletrônicos de ponta. O artesanato, aliás, e a principal atividade econômica de parte significativa da população, cuja produção tem como destino principal as levas de turistas que todos os dias circulam por suas ruas e becos.

PRAÇA JEMAA EL-FNA

Minha sugestão é que o passeio pela medina comece pela indispensável Praça Jemaa el-Fna, considerada a mais movimentada e animada de África. Embora seja uma praça alegre e movimentada, seu nome pode ser traduzido como “Assembleia dos Mortos”. No passado, ela era o local onde eram executados os criminosos, cujas cabeças ficavam expostas para servir de exemplo. Mas há divergências quanto a isso, já que a palavra djemaa também pode significar mesquita. Segundo alguns, o nome do local pode ser traduzido como “lugar da mesquita desaparecida”, em referência a uma mesquita almorávida que havia no local e foi destruída.

Nessa praça, tanto durante o dia quanto à noite, há sempre muitas atividades culturais e artísticas, como apresentações de artistas de rua, acrobatas, encantadores de serpentes, faquires engolidores de espadas, curandeiros, músicos, dançarinos, contadores de histórias etc. À noite misturam-se na Jemaa el-Fna locais e turistas nas dezenas de barracas de comida típica.

SOUK SEMMARINE

Outra atração imperdível são os souks da medina de Marrakech. Entre eles, o Souk Semmarine, a cerca de 300m da Praça Jemaa al-Fna, é, sem dúvida, o mais movimentado, com suas várias ruas repletas de lojinhas tradicionais. Assim como em Fez, nele você é atirado no meio de uma impressionante variedade de cores, aromas e formas. São joias, tecidos, temperos e produtos em geral, vendidos por comerciantes que adoram negociar, não importa em qual idioma.

Em geral, os guias de turismo indicam que, ao ouvir um preço, você faça cara de paisagem, reclame, peça desconto. Segundo eles, a barganha faz parte da cultura marroquina e seria uma ofensa não pechinchar. Não acredite nisso. Embora os comerciantes locais estejam sempre dispostos a negociar e nunca perder um cliente, caso algum deles te der um preço e você não se manifestar, não é verdade que ele irá se entristecer ou, espontaneamente, baixar o preço. Pechinchar pode até ser uma atração turística a mais, mas é só isso. O resto é comércio, como em qualquer outro lugar.

TÚMULOS SAADIANOS

Ainda tendo como referência a Praça Jemaa el-Fna, uma visita que vale a pena são os Túmulos Saadianos, um dos mais populares pontos turísticos de Marrakech. Esse mausoléu coletivo foi construído durante o reinado de Ahmad al-Mansur, que governou o Marrocos entre 1578 e 1603. Devido à sua beleza, em especial da sua decoração, são descritos como “joias arquitetônicas” da medina de Marrakech na lista do Patrimônio Mundial da UNESCO.

Localizado em um jardim fechado, o acesso a esse mausoléu coletivo se dá por uma estreita passagem, quase secreta. Nesse jardim estão localizados os túmulos de mais de sessenta membros da dinastia saadiana, ricamente decorados com mosaicos coloridos.

A construção mais importante dos Túmulos Saadianos é o mausoléu principal. Nessa cripta estão os túmulos do sultão Ahmad al-Mansur e seus familiares. O mausoléu é composto por três salões, sendo o mais famoso a câmara de duas colunas onde estão sepultados os filhos do sultão.

A câmara onde está sepultado o corpo de Ahmad al-Mansur tem uma estela finamente decorada com madeira de cedro esculpida e estuque. Os túmulos foram feitos em mármore de Carrara. No exterior há um jardim e um pequeno cemitério onde estão sepultados soldados e servos da família real.

MELLAH

Assim como em Fez, Marrakech também tem seu bairro judeu, seu mellah. O antigo bairro judeu, ou Mellah de Marrakech (também conhecido atualmente como Hay Salam, “Bairro de Paz”) está localizado a sudeste da medina, muito perto do Palácio Bahia. Para chegar lá, saindo da Praça Jemaa el-Fna, o caminho mais fácil é pela rua Riad ez Zitoun.

Segundo algumas fontes, antigamente havia uma grande comunidade judaica em Marrakech, de cerca de 36 mil pessoas, que aos poucos foi desaparecendo. Assim como aconteceu em Chefchaouen e Fez, muitos imigraram para Israel ou para a França nos anos 1950 e 1960. Acredita-se que atualmente existam menos de 300 judeus por lá. Hoje em dia, a maioria dos moradores dessa região são as famílias mais pobres da cidade. Mesmo assim, vale a pena percorrer o souk local e caminhar por suas ruas. Na parte leste do bairro ainda existe um cemitério judeu.

MESQUITA KOUTOUBIA

A Mesquita Koutoubia é a maior mesquita e um dos monumentos mais representativos de Marrakech. O seu interior é constituído por seis salas sobrepostas, atravessadas por uma rampa que permitia ao almuadem chegar à varanda da torre para chamar os fiéis para as orações do dia.

Situada a sudoeste da Praça Jamaa el-Fna, ao lado da Av. Mohamed V, a Koutoubia se destaca pelo seu minarete de 69m de altura, o edifício mais alto da cidade, e uma largura de 12,8m. Ele é considerado tão importante que por lei é proibido construir edifícios mais altos que ele.

Minarete (abaixo) (al-manāra, “farol”) é a torre de uma mesquita, local do qual o almuadem (al-muadhin) – o encarregado de anunciar em voz alta o momento das cinco preces diárias – grita Allah hu akbar! (Alá é grande), chamando os fiéis para a oração. Os minaretes são normalmente bastante altos se comparados às estruturas ao seu redor. O objetivo do minarete é fazer com que a voz do almuadem, a pessoa que faz o chamado à oração (azan) possa ser ouvida a grandes distâncias.

O nome katubia não tem nada a ver com a palavra cotovia da língua portuguesa, que se refere a um pásaro muito comum na Europa. A palavra quer dizer “dos livreiros” (kutub em árabe é “livro”) e faz referência à presença do souk de vendedores de livros que existia nas proximidades, com mais de cem postos.

PARQUE LALLA HASNA

Um excelente lugar para relaxar ou descansar de uma caminhada é Parque Lalla Hasna, um grande parque urbano bem próximo ao centro da cidade. Fica bem ao lado da grande mesquita Koutoubia, do Cemitério Sidi Ali Bel Kacem e da grande Praça Jemaa el-Fna. Parece ser um dos lugares preferidos tanto para os jovens quanto para famílias locais passarem algumas horas de descanso e de lazer. Ele é cortado por várias alamedas, todos levando à fonte que fica no centro do parque, onde você encontra vários bancos, à sombra de muitas árvores e arbustos, além de canteiros de flores espalhados por toda sua extensão.

PALÁCIO BAHIA

Também imperdível é o Palácio Bahia, um complexo palaciano do final do século XIX que fica a cerca de 900m da Praça Jemaa el-Fna, na direção sudeste. (Antes de mais nada, é importante dizer que a palavra bahia, em árabe, significa “brilhante” e tem a ver com a intenção de seus construtores. O nome do palácio, portanto, não tem nada a ver com o estado brasileiro nem com a baía, acidente geográfico.)

Esse palácio foi construído para ser a residência de Si Musa, grão-vizir do sultão alauíta Muhamed ibn Abd al-Rahman, em 1859, e foi concluído sob a direção de seu filho, Si Ba Ahmed ibn Musa, grão-vizir do sultão Moulay Abdelaziz, entre 1894 e 1900. Após a morte de Ba Ahmed, o palácio passou a ser propriedade real. Poucas horas após a morte de Ba Amed, o sultão Abdelaziz ordenou que os itens valiosos do palácio fossem expropriados. Muitas pessoas da elite, incluindo o próprio sultão e suas esposas, se apropriaram de todas as obras de arte e mobília do palácio para decorar seus próprios palácios. Por esta razão, infelizmente, todos os espaços do palácio atualmente se acham vazios.

Em 1912, após a instalação do Protetorado Francês no Marrocos, o palácio foi convertido na residência administrador colonial francês na cidade, general Louis Hubert Lyautey. Após a independência do Marrocos, o palácio foi usado novamente como residência real para o rei Mohammed V, antes de ser transferido para o Ministério da Cultura de Marrocos sob o rei Hassan II, que o transformou em uma atração turística.

Hoje o palácio é um dos pontos turísticos mais visitados do Marrocos. Em seus 8ha existem 150 cômodos que levam a vários pátios e jardins. O momento mais apreciado por grande parte dos turistas é o harém das 4 esposas e 25 concubinas de Abu Bou Ahmed.

Detalhe importante: como o palácio está completamente vazio e como não há quase nenhuma informação em inglês ou qualquer outro idioma além do árabe, é recomendável que você agende uma visita guiada. O valor do ingresso é 10 dirhams.

JARDIN MARJORELLE

Continuando a lista de locais imperdíveis, ponha em sua lista o Jardin Marjorelle. Esse jardim é a obra mais famosa do pintor francês Jacques Majorelle, que passou 40 anos pintando e praticando jardinagem decorativa. No jardim que leva seu nome foram reunidas espécies de diversos lugares do mundo, embora a estética remeta ao estilo tradicional dos jardins marroquinos. Por isso, o Jardin Marjorelle é uma explosão de cores e formas incríveis.

Apaixonado por Marrakech, em 1922 Jacques Majorelle se encantou por um palmeiral a noroeste da medina e decidiu comprá-lo. Nove anos depois, em 1931, mandou construir nele sua villa de estilo mourisco, instalando os cômodos residenciais no segundo andar e uma grande oficina no térreo.

Apaixonado também por botânica, em todas as viagens que fazia Jacques Marjorelle trazia para casa centenas de veriedades de árvores e plantas raras de todos os quatro cantos da Terra, se tornando uma espécie de jardineiro de seu próprio jardim.

Em 1937, o pintor desenvolveu uma variante brilhante e intensa da cor azul ultramarina, chamando-a de azul Majorelle. Com essa cor ele cobriria as paredes de sua oficina, depois o jardim inteiro, que em 1947 ele decidiu abrir à visitação pública.

No fim da vida, depois de se desfazer de vários itens, Jacques Marjorelle foi obrigado a vender o que restava do jardim. A propriedade ficou abandonada e acabou se deteriorando. Yves Saint Laurent e seu marido e sócio Pierre Bergé o descobriram em 1966, durante a sua primeira viagem a Marrakech. Na década de 1980, Saint Laurent e Bergé adquiriram o jardim

com a intenção de o salvarem de um projeto de criar um complexo hoteleiro que previa a sua desparição.

Os novos proprietários decidiram morar na casa que tinha sido de Jacques Marjorelle e a rebatizaram de Villa Oásis. Desde então Yves e Pierre passaram a morar no Jardim de Majorelle. Durante anos eles restauraram o jardim, adicionaram novas plantas e transformaram o lugar num belíssimo oásis urbano.

No Jardin Majorelle ficam dois museus: o Musée Yves Saint Laurent Marrakesh, na verdade numa grande e moderna construção ao lado do jardim, e o Musée Berbère, no seu interior.

O ingresso para o jardim custa 70 dirhams; para o Musée Berbère, 30 dirhams; para o Yves Saint Laurent Museum, 130 dirhams. O ingresso para todas as atrações juntas custa 180 dirhams. A cotação do dirham (sigla: MAD) no momento em que escrevo este post (23/09/2021) é R$ 0,59.

O Jardin Majorelle fica na Rue Yves Saint Laurent, cerca de 3,5km a nordeste da Medina. Você pode chegar lá de táxi por um preço entre 20 e 30 dirhams. A corrida não é tabelada, mas você pode – e deve! –negociar o preço. Se tiver disposição, dá pra ir a pé. São cerca de 30 minutos até lá, numa caminhada tranquila. Passa pela medina e é sempre uma boa forma de conhecer mais recantos de Marrakech.

Se você quiser mais informações, acesse o site oficial do Jardim. Essas dicas, claro, não estão baseadas na nossa experiência, já que estávamos na “nossa” 4 x 4, acompanhados nos nossos fiéis escudeiros Mustafa (o guia) e Ibrahim (o motorista), nossos companheiros de viagem durante todos os dez dias.

Fachada do Musée Yves Saint Laurent

JARDIM DA MENARA

O Jardim da Menara é um parque e conjunto de hortas, pomares e oliveiras a oeste do centro e relativamente próximo do sopé da cordilheira do Alto Atlas. Foi construído por volta de 1130 pelo califa almorávida (dinastia berbere que reinou sobre o Marrocos, o Magrebe ocidental e parte da Espanha, de 1055 a 1147) Abd-el-Mumin, o fundador da cidade.

O nome menara deriva do pavilhão com telhado piramidal verde existente nos jardins (menzeh), ao lado do qual fica um lago artificial. O pavilhão foi construído no século XVI pela dinastia saadiana, mas seu aspecto atual resulta da reconstrução realizada em 1866, quando o local se tornou um espaço de lazer dos sultões marroquinos.

Originalmente, o lago tinha como objetivo armazenar água para a cidade, usando um sofisticado sistema de canais subterrâneos chamados qanat, mas hoje tem como função irrigar os jardins, hortas e pomares, debaixo das quais as famílias fazem piquenique. Ele é abastecido por um antigo sistema hidráulico, que traz água da Cordilheira do Atlas, a aproximadamente 30km de Marrakech.

O Jardim da Menara não é nem o lugar mais acessível (está a 4,5km da Praça Jamaa el-Fna) nem o mais bonito de Marrakech, mas em nossa opinião é o melhor lugar para o visitante ter contato com o cotidiano da população local – neste caso, particularmente, seus momentos de descontração e lazer.


CASABLANCA

A última etapa da nossa viagem foi Casablanca, na costa atlântica, uma esticada de 244km na direção norte. É a maior cidade do Marrocos e também uma das maiores do Norte da África, com cerca de 5,5 milhões de habitantes, e também o maior centro comercial e industrial do país.

A área ocupada hoje por Casablanca foi colonizada pelos berberes por volta do século X a.C. Foi utilizada como porto pelos fenícios e depois pelos romanos. Nesse período, surgiu nessa região um pequeno reino independente, de origem imprecisa, que alguns atribuem aos romanos e outros, aos berberes, com o nome de Anfa. Esse reino continuou a existir até à sua conquista pelos almorávidas em 1068.

Durante o século XIV, sob a dinastia merínida, a cidade aumentou em importância como porto e, no início do século XV, tornou-se novamente independente. Surgiu como um porto seguro para os piratas, o que conduziu a ataques por parte dos portugueses, que a chamavam de Anafé, e que destruíram a cidade em 1468. Os portugueses usaram as ruínas para construir uma fortaleza militar em 1515. Segundo alguns pesquisadores, o povoado que cresceu em torno dessa fortaleza era chamado pelos portugueses de "Casa Branca", de onde vem o nome atual, enquanto o nome Anfa passou a desinar um bairroa oeste no centro da cidade, que até hoje ainda tem esse nome. Os portugueses abandonaram definitivamente a região logo após o famoso terremoto de 1755, que destruiu a cidade.

A cidade e a medina de Casablanca como hoje existe foram fundadas em 1770 pelo sultão Mohammed ben Abdallah (1756-1790), neto de Moulay Ismail. Denominada em árabe ad-Dār al-Bayḍā’ (“Casa Branca”). Nessa época muitos mercadores espanhóis se estabeleceram na cidade, quando a cidade passou a ser conhecida como Casablanca.

Casablanca manteve uma condição do porto de pouca importância até a época da ocupação francesa do Marrocos, a partir de 1907, quando a população da cidade era de cerca de 12 mil pessoas. No entanto, após a conquista e a chegada de colonos franceses, houve um grande aumento populacional, em grande parte através do crescimento das favelas.

O filme Casablanca, de 1942, sobre o qual já falei na postagem anterior mostra esse período colonial da cidade, quando Casablanca era um dos espaços de luta pelo poder entre as potências inimigas europeias, sem qualquer referência à população local. No filme aparecem personagens cosmopolitas e aventureiros – americanos, franceses, alemães, checos e de outras nacionalidades – sem a menor preocupação ou envolvimento com a população nativa. Aliás, durante a II Guerra Mundial, em janeiro de 1943, a cidade foi o palco de uma conferência entre o presidente norte-americano Franklin Roosevelt e o primeiro-ministro britânico Winston Churchill para decidir os "destinos do mundo".

A propósito, a passagem dos franceses pela cidade está por toda parte. Um dos seus pontos centrais, por exemplo, é a Place des Natios Unies, tipicamente francesa, da qual irradiam diversas avenidas. Em sua maioria, seus edifícios constituem uma adaptação art déco da arquitectura árabe-andaluz, quase sempre pintados de branco.

É inegável que tanto sua longa existência como sua experiência histórica berbere, romana, árabe, portuguesa, espanhola, francesa – além de sua costa atlântica – são fontes riquíssimas para qualquer tipo de interesse turístico. Ao mesmo tempo árabe, berbere e europeia, ela oferece sempre algum tipo de atração, de shopping centers com lojas de grife a pequenas barraquinhas de artesanato, largas avenidas e ruelas estreitas da medina, mesquitas, templos católicos, praias etc. Ainda assim, Casablanca foi, sem dúvida, a cidade mais ocidental e cosmopolita das que visitamos no Marrocos – para o bem e para o mal.

Mas embora a cidade ofereça essa grande quantidade de pontos turísticos de interesse, nosso cansaço, o pouco tempo que nos restava e o clima de final de viagem acabaram nos vencendo. Nossa visita a Casablanca não foi muito além dos arredores do Melliber Appart Hotel, onde estávamos hospedados.

Acredito não haver dúvidas de que de todas as atrações turísticas de Casablanca duas acabam merecendo destaque especial: o famoso Rick’s Café e a Mesquita Hassan II.

RICK’S CAFÉ

Para quem nunca ouviu falar, o Rick’s Café Casablanca é um restaurante, bar e café inaugurado em 1º de março de 2004, projetado para recriar o bar que ficou famoso por Humphrey Bogart e Ingrid Bergman no clássico do filme norte-americano Casablanca, do qual falei aí acima. Situado em uma antiga mansão nos limites da antiga medina de Casablanca, esse restaurante-piano bar é repleto de detalhes arquitetônicos e decorativos que lembram o filme: arcos curvos, um bar esculpido, sacadas, balaustradas e contas e luzes de latão com estêncil e plantas que projetam sombras luminosas nas paredes brancas. Há um piano Pleyel autêntico dos anos 1930, no qual a toda hora o pianista da casa interpreta, obviamente “a pedido dos visitantes”, a canção As time goes by, escrita em 1931 por Herman Hupfeld e interpretada no filme pelo personagem Sam, vivido por Dooley Wilson.

Propriedade da empresa The Usual Suspects, o restaurante é geralmente descrito como o “verdadeiro” Café de Rick, finalmente trazendo o lendário "Gin Joint" famoso no cinema à vida na Casablanca de hoje.

Mas atenção! Se você estiver realmente a fim de visitar o Rick's, fique sabendo que é preciso fazer reserva. Em geral, com grande antecedência. Caso contrário, o máximo que você vai consequir (como aconteceu com a gente) é ir até a frente desse icônico café é ficar ouvindo, em francês e em inglês, as desculpas de um elegante mas já desanimado recepcionista que não há vaga. Na verdade, havia, sim, vaga para jantar, mas a preço de turista, isto é, caro pra caramba. Nos contentamos com as fotos da fachada...

MESQUITA HASSAN II

A Mesquita Hassan II, no Boulevard Sidi Mohamed Ben Abdellah, é o mais alto e o segundo maior templo do mundo, menor apenas que a mesquita de Meca, na Arábia Saudita (em cujo pátio fica a famosa Caaba, onde está guardada a Pedra Negra, a relíquia mais sagrada do Islã). Construída segundo as mais avançadas tecnologias, sua estrutura é resistente a abalos sísmicos, seu teto se abre automaticamente, o assoalho pe aquecido e suas portas são elétricas. Seu minarete dispara lasers a uma altura de 200m, que podem ser vistos a vários quilômetros de distância. É uma das poucas mesquitas do mundo muçulmano que permitem a visita a turistas não muçulmanos.

Além da mesquita em si, seu exterior e entorno, com destaque para o museu que dá todos os detalhes do processo de construção da mesquisa, são de uma imensa beleza e certamente fazem tão bem aos crentes (islâmicos ou de outras fés) quanto aos não crentes.

Criada pelo arquiteto francês Michel Pinseau, sua construção começou em 1985 e foi concluída em 1993, envolvendo cerca de 2.500 operários e 10.000 artesãos marroquinos. Seu custo aproximado foi de 5.494 milhões de dirhams. A sua localização à beira-mar deve-se a Hassan II, rei do Marrocos entre 196 e 199, se ter inspirado no versículo do Corão que diz que “O trono de Deus se encontrava sobre a água”.

Ainda tivemos tempo para visitar o Marina Shopping Center, muito igual a qualquer shopping de uma grande cidade do chamado mundo ocidental: o mesmo público de classe média, com destaque para pessoas mais jovens, as mesmas lojas, o ambiente clean e modernoso, enfim, templo do consumo. Talvez chame a atenção o fato de que há poucas inscrições, textos ou propagandas em árabe, reafirmando a vocação "francesa" da cidade. Assim como também é muito raro ver mulheres com vestimentas típicas da religiosidade muçulmana, tão comuns nas outras cidades marroquinas por onde passamos.

Entre o Marinas Shopping e a Mesquita Hassan II há um complexo de edifícios que, ao que pude perceber, mistura atividades comerciais, hoteleiras e prédios residenciais por onde acho que também vale a pena circular. Claro, permanece o ambiente clean e seleto de classe média, que tem de bônus um belíssimo calçadão à beira-mar.

Nas nossas horas finais em Casablanca ainda foi possível fazer um passeio tendo como linha norteadora o Boulevard Moulay Youssef, uma das artérias da cidade, que começa numa bela rotatória quase em frente à Mesquita Hassam II e termina no outro lado da cidade, na Place Saint-Exupéry. Nunca nos afastando muito dela, pudemos ter uma pálida ideia de como funciona a cidade, do trânsito, serviços, circulação de pessoas.

Como eu disse antes, a cidade é uma metrópole e um dia e meio para duas pessoas cansadas após 32 dias fora de casa (22 na Espanha e 10 no Marrocos) foi absolutamente insuficiente. Provavelmente, não voltaremos mais a Casablanca, a não ser, talvez, num stopover numa próxima viagem à Europa ou ao Norte da África. Apesar disso, não aconselho a nenhum viajante tão pouco tempo nessa cidade. Todos os blogs de viagem listam uma série de atividades e lugares para Casablanca, como o Bab Agnaou; o Parque da Liga Árabe e o Parque Yasmina; o Museu da Ville des Arts; o bairro Habbous (ou Nova Medina), com suas lojas de artesanato; a antiga catedral católica do Sagrado Coração de Casablanca; a medina antiga; o Museu Judaico de Casablanca, único museu judaico do mundo árabe, entre tantas outras atrações.

RESUMÃO

Como tenho reforçado nas postagens anteriores, a proposta deste site não é ser um guia de viagens ou ponte para negócios na área do turismo – embora eventualmente possa estabelecer alguma ligação com isso. Minha intenção é fazer relatos de viagem que possam ao mesmo tempo comentar informações históricas, compartilhar fotos e vídeos e estimular pessoas, principalmente as não mais tão jovens, a viajar por aí.

O Marrocos tem 446,5km², é um pouco menor que a Bahia e corresponde a aproximadamente 5,2% do território brasileiro. Em apenas dez curtos dias, nossa viagem por esse pequeno e rico país nos trouxe conhecimentos, prazeres, surpresas, sabores, cheiros, imagens de incrível beleza. Espero que o relato dessa nossa curta, mas intensa viagem pelo Marrocos estimule você que chegou até aqui a viajar mais. Pelo Marrocos ou pra qualquer outro lugar.

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