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  • Foto do escritorAlberto Moby Ribeiro da Silva

LAGOS ANDINOS I: UM AMOR ANTIGO

Atualizado: 6 de jul. de 2023



UM AMOR ANTIGO

Eram outros tempos. Tempos em que as amizades virtuais se concretizavam e permaneciam por décadas através do estranho hábito de se escrever cartas. Nessa época, lá por volta de 1995, minha amiga virtual chilena (ou penpal, como dizíamos na época) María Teresa Adriasola[1] sugeriu que um casal de amigos seus – a poeta Marina Gerhold e o ator Oscar Sepúlveda[2] –, mochilando pela América Latina, me procurasse quando estivesse no Rio de Janeiro. E assim foi feito. Enquanto Óscar e Marina estiveram pelo Rio, sua base foi minha casa, no bairro do Estácio, que eu compartilhava com Dilma, minha companheira na época.

Poucos dias depois Marina e Óscar seguiram viagem, nos convidando para uma visita de retribuição tão logo eles voltassem da turnê pelo nosso continente, o que deveria acontecer cerca de nove meses depois. O casal morava em Bariloche, às margens do Lago Nahuel Huapi, uma das cidadezinhas mais emblemáticas da região conhecida como Lagos Andinos. Eu já tinha passado por lá, de passagem, em 1987, quando fui ao Chile pela primeira vez para conhecer pessoalmente minhas penpals María Teresa e Marta Cid (com quem, aliás, particularmente graças ao Facebook, mantenho contato até hoje!).


E assim foi feito. Estávamos, se não me engano, no ano de 1995. Tão logo o casal nos comunicou do seu retorno, resolvemos fazer as malas para passar uns dias em Bariloche. Naquela época, essa cidade era, antes de tudo, símbolo de status. O preço das passagens de avião era bastante alto, a hospedagem, muito cara, assim como os custos com os demais itens de lazer. Afinal, tratava-se de um lugar a que os turistas sul-americanos costumavam (e costumam) ir em busca da neve e dos esportes a ela relacionados, como alternativa mais em conta a lugares como Aspen, nos EUA, Sierra Nevada, na Espanha, ou os Alpes suíços. Para mim e Dilma, no entanto, professores e estudantes de pós-graduação, era uma alternativa ainda salgada – a não ser pelo pequeno detalhe de agora tínhamos um casal de amigos dispostos a retribuir a gentileza de tê-los hospedado no Rio.


Minha primeira viagem ao Chile tinha sido mais que uma aventura. Mas, em alguns aspectos, tinha sido parecida. A grande diferença estava no meio de transporte, seu trajeto e duração. Pobre, mas determinado, fui do Rio a Santiago de ônibus, pela empresa Pluma[3], num percurso que eu imaginava que deveria cruzar a fronteira entre a Argentina e o Chile na região de Paso Libertadores pelo túnel conhecido como Las Cuevas-Caracoles (ou Túnel del Cristo Redentor). No entanto, devido às fortes nevadas que ocorrem nos meses de inverno – viajei em agosto –, o trajeto aumentou em cerca de quinze horas.


Contando a partir de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, a viagem aumentava de vinte e três horas aproximadamente para trinta e oito horas. Em quilômetros, ainda contando apenas a partir de Uruguaiana, aumentava de cerca de 1.725 para 3.300! Não me lembro se já tinha essa informação, mas imagino que provavelmente não, caso contrário, teria escolhido uma data diferente. Isso significou que saí do Rio de Janeiro por volta das 13h de uma quarta-feira e cheguei a Santiago mais ou menos a essa hora – num domingo!

Eu, com máscara pasamontañas e pose de guerrilheiro ao lado do heroico ônibus da Pluma no Paso Fronterizo Internacional Cardenal Antonio Samoré, na fronteira entre o Chile e a Argentina


Apesar do extremo cansaço, da bunda quadrada, no frio nos pés (era a primeira vez que eu enfrentava temperaturas próximas de zero e que via neve), a viagem foi um encanto. A ponto de eu chegar a achar no percurso havia destinos mais interessantes e encantadores que a própria capital chilena. Se, então, levarmos em conta o ambiente soturno de Santiago, muito em função da truculência da ditadura militar do general Augusto Pinochet, em alguns aspectos a paisagem nevada que enfrentei dentro daquele ônibus (que não devia ter mais que quinze passageiros, se minha memória não me trai)...


O importante dessa experiência de 1987 foi ter levado para a experiência de 1995 a sensação de que aquela região devia ser uma das mais bonitas do planeta, que merecia ser conhecida assim que possível. Por esta e outras razões, o convite-retribuição de Óscar e Marina eram imperdíveis.

Descontada a "luz divina" da câmera fotográfica analógica, esse sou eu em Bariloche, com o Lago Nahuel Huapi e a Cardilheira dos Andes ao fundo.


E tudo em Bariloche foi muito mais do que eu e Dilma esperávamos. Embora tivéssemos viajado no verão, era o nosso primeiro contato real com a neve – ainda que só um tiquinho dela, lá no alto do Cerro Catedral, um dos cartões postais da cidade, de onde se pode ver uma paisagem deslumbrante. Além da hospitalidade e do aconchego, Marina e Óscar nos brindaram com comidas típicas da região, principalmente na casa de Luis, irmão de Óscar; nos apresentaram o encantador Lago Nahuel Huapi, a poucos passos de casa; a deslumbrante paisagem da região de Llao Llao (em “argentino”, pronuncia-se Xao Xao); o Cerro Tronador...

Dilma, Luis Sepúlveda, irmão de Óscar, e Marina Gerhold às margens do Nahuel Huapi pertinho de casa


Como se não bastasse, Marina e Óscar, viajantes por natureza e por vocação, tinham um passeio programado, se não me engano até Temuco, no Chile. Em função desse passeio, nos convidaram a fazer com eles parte do trajeto, nos separando na cidade de Osorno, 250 km ao sul do destino deles, enquanto nós fomos para Puerto Montt, 107 km ao sul de Osorno. Detalhe fundamental foi que eles, prevendo que estariam de volta depois de nós, deixaram com a gente a chave de casa!


De Puerto Montt ainda fomos a Chiloé – na verdade, um breve contato com a cidadezinha de Ancud, localizad na Isla Grande de Chiloé, com 8.384 km², a maior de um arquipélago composto por cerca de 40 ilhas. Depois desse passeio bônus, voltamos num pequeno avião para Bariloche, de onde o espetáculo foi sobrevoar alguns dos vários vulcões da região, alguns deles ativos.

Vulcões Calbuco (à esquerda) e Osorno (à direita) vistos do velho avião bimotor que nos levou de volta de Puerto Montt a Bariloche


Os anos se passaram, o casamento com Dilma se transformou numa amizade que dura até hoje. Com o passar do tempo minha qualidade de vida melhorou e tive a oportunidade de viajar mais, dentro e fora do Brasil. Como disse na postagem anterior, essa sempre foi uma das minhas maiores paixões, para a fui aprendendo a direcionar energias e economias. Mas toda vez que voltava de uma viagem, era inevitável eu pensar que, tipo, “tudo bem, ok, a viagem foi maravilhosa, mas não existe lugar mais bonito que a região dos Lagos Andinos”. Para, no momento seguinte, autocrítico, pensar? “Será que essa impressão não teria a ver com a forma carinhosa e hospitaleira com que Óscar e Marina[4] nos trataram? Ou com o fato de eu estar feliz, naquela época, com a companhia da Dilma? Ou por ter sido a primeira vez que eu tive um contato mais prolongado com ambientes naturais tão amplos e aparentemente tão pouco tocados pelos humanos?” A sensação era de que a única forma de sanar essa dúvida era fazer outra viagem para a região. Mas esta já é outra história...

 

[1] Minha amiga María Teresa Adriasola, na verdade, é muito mais conhecida respeitada no Chile e também fora do país pelo pseudônimo literário de Elvira Hernández. Atualmente, Elvira Hernández é detentora, entre outros, do Prêmio do Festival de Poesia La Chascona de 2017 pelo conjunto da obra, do Prêmio Nacional de Poesia Jorge Teillier de 2018, do Prêmio Iberoamericano de Poesia Pablo Neruda de 2018 e do Prêmio Círculo de Críticos de Arte de Chile de 2018, Categoria Poesia pelo livro Pájaros desde mi ventana.

[2] Óscar, infelizmente, morreu jovem, de câncer, poucos anos depois de nosso segundo encontro. Seu trabalho está registrado nos filmes Hasta la victoria siempre, de Juan Carlos Desanzo (1997), Hijo del río, de Ciro Cappellari (1995) e La nave de los locos, de Ricardo Wullicher (1995).

[3] Essa linha não existe mais atualmente, assim como outras linhas internacionais da empresa, como a Rio-Buenos Aires, a Rio-Montevideo e Rio-Asunción.

[4] Algum tempo depois, Marina e Óscar se separaram e ele foi morar em Buenos Aires, onde tinha uma filha de um relacionamento anterior. Durante algum tempo eu e Dilma ainda mantivemos contato por carta com Marina Gerhold (telefonema internacional naquela época, nem pensar!). Foi ela que nos contou da morte de Óscar. Depois disso, por razões que desconhecemos, as cartas foram escasseando, até que perdemos contato, infelizmente.

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